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Corpo,  Erika Responde

Você sabe o que é plantar a lua?

Oi, meninas! Como foram de ano novo? Nos últimos dias, pipocou nas redes uma entrevista com a atriz Bianca Bin, a Clara de O Outro Lado do Paraíso. Ela disse que, quando tinha 12 anos, morreu de vergonha ao descobrir que tinha menstruado e que, hoje em dia, “agradece por esse sagrado feminino” e faz o processo de plantar a lua. Ficou confusa? Calma que a gente te explica mais sobre isso!

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O que é plantar a lua?

Basicamente é “plantar” o sangue menstrual. Participo de diferentes grupos de mulheres e observei três tipos de reações sobre a prática. Team o #TeamQueNojo, o #TeamQueLegal e o #TeamYUKÊ. Na minha opinião, esses diferentes tipos de opiniões existem porque ainda é tabu falarmos sobre a menstruação. Pois é, estamos em pleno 2018 e falar sobre o tema ainda deixa gente desconfortável. E, ai de falar isso em público! A atriz e rainha teen Maísa foi mega criticada pelos seus tweets em que “desabafava” sobre a possibilidade de estar menstruada durante o fim de ano:

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Alguém coroa logo essa menina, por favor!

Se apenas falar sobre menstruação já causa caretas, imagina só conversar sobre o que podemos fazer com o sangue menstrual? Caos total. Mas a verdade é que esse costume é bem antigo, com origem nas sociedades matriarcais. Por isso, estou escrevendo este post: para refletir o porquê da menstruação ainda ser considerada “nojenta”, falar sobre as semelhanças entre a lua e o ciclo menstrual e resgatar os aspectos do sagrado feminino. Vamos lá?

É muito “mais antigo do que andar para trás”, era algo muito comum nas sociedades matriarcais.

Minha intenção nessa matéria é refletir sobre o porquê da menstruação ainda ser tratada como nojo/tabu, falar sobre os aspectos de semelhança entre a lua e o ciclo menstrual, trazer reflexões sobre nossa ancestralidade e abordar o resgate do sagrado feminino e seus aspectos.

O tabu da menstruação

Mulher menstruada não pode lavar o cabelo, ou andar descalça. Mulher menstruada não pode tocar na massa do pão ou vinho, porque vai estragar. Mulher menstruada não pode praticar atividade física. Mulher menstruada não pode ferver leite, porque vai azedar; nem segurar uma criança, senão ela não vai dormir à noite. Mulher menstruada deve evitar sair de casa. Quem nunca ouviu uma dessas frases?

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Tudo crendice. Não existem provas científicas que demonstrem que a mulher é incapaz de fazer determinadas coisas, só por estarem menstruadas. Nas entrelinhas, podemos perceber que esses mitos populares serviam como uma tentativa de esconder a mulher. Para muitos, a primeira menstruação era considerada a perda da inocência, da infância. Em algumas sociedades, a menarca significava que a menina estava pronta para “se tornar mulher” e passar pelo ritual do matrimônio.

O tabu da menstruação

A menstruação é vista como algo impuro, sujo – assim como a mulher. Ao mesmo tempo em que somos “santificadas” pela maternidade, somos odiadas em todas as outras formas. Desde a antiguidade, a figura feminina é sinônimo de perigo e o tabu da menstruação se mantém no inconsciente coletivo. Ele se baseia num “lado obscuro feminino”, que seria expelido durante a menstruação. Essa ideia é alimentada por alguns dogmas culturais/religiosos que consideram pecado ter relações sexuais com uma mulher “naqueles dias”. O movimento de esconder tudo que é vinculado ao sistema reprodutor feminino faz parte da própria repressão sexual feminina e, esconder o ciclo menstrual, é reforçar que o desejo sexual feminino também deve ser escondido. O sexo e o desejo são pertencentes apenas aos homens.

Sociedade Matriarcal: Ciclo Menstrual e o Ciclo Lunar

Nas sociedades matriarcais, a cultura e os costumes estavam conectados com aspectos da natureza. Assim, desde pequenas, as meninas tinham outra compreensão de si mesmas e de seus corpos. A menstruação era sagrada, em vez de “suja” ou “incômoda”. E, como naquela época não existia a famosa tabelinha, elas usavam a lua como referência. O sangue menstrual, por sua vez, era usado em rituais de agradecimento a Deusa Mãe pelas graças relacionadas à fertilidade, como rebanhos, plantio e o nascimento de novas crianças.

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O ciclo menstrual e a lunação (fases da lua) duram cerca de um mês. E isso faz toda a diferença! Se você ovula (está fértil) em uma fase da lua, menstrua (renova o útero) em outra. Geralmente, é de acordo com as fases complementares que tudo acontece. Ou seja, se você menstrua na lua nova, provavelmente ovula na cheia; se menstrua na cheia, provavelmente ovula na nova e por aí vai. Eu, por exemplo, menstruo na minguante e ovulo na crescente. Isso, é claro, se não tiver nenhuma questão que possa atrapalhar o meu ciclo.

Desta forma, podemos entender que “plantar a lua” vem da conexão entre os ciclos femininos, lunares e as estações do ano:

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Sagrado Feminino

Sagrado Feminino é o resgate de uma consciência antiga que retoma osvalores das mulheres em diversos aspectos: social, pessoal, psicológico, religioso, cultural. Também significa uma busca pela atitude ecologicamente correta. Muitas das mulheres que vão em busca do sagrado feminino sentem um chamado interior. É o autochamado, o encontro de você com você mesma, com sua essência, com suas verdades e sua plenitude.

Diferente das religiões, o sagrado feminino não tem regras sobre o que você precisa acreditar. Você só tem que acreditar em você mesmaEscute sua própria voz e crença. Muito se fala, a partir dessa ideologia, sobre suas Deusas interiores, mas elas nada mais são do que os seus arquétipos, manifestações da sua própria psique, as quais nomeamos Deusas. Aqui, quem define as regras é você!

Parte de vários hábitos, plantar a lua é a prática que ressignifica o início de um novo ciclo reprodutivo. É sobre a maneira como lidamos com nosso próprio sangue menstrual e como podemos usá-lo para fertilizar as plantinhas (nosso sangue é rico em nutrientes) e diminuir a produção de lixo não reciclável, como absorventes internos e externos.

Mulheres que não menstruam ou mulheres trans podem entrar em contato com o sagrado feminino através das rodas de conversa, meditação, danças circulares e outras técnicas.

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E como posso plantar a minha Lua?

Super simples! As mocinhas que usam coletor menstrual podem diluir o sangue na água e regar suas plantinhas. Deixe de lado essa bobeira de “sangue fede”! Em contato com oxigênio, o sangue não emite nenhum odor incomodo, apenas o cheiro de ferro. Também é tranquilo para quem usa paninhos ou calcinhas absorventes: deixe o material de molho apenas na água e use o líquido no plantio da sua lua. Eu passei a plantar a minha há alguns meses e de forma sincrônica. Desde então, passei a ter uma relação  muito mais positiva com meus ciclos, meu corpo, minha interação com o meio ambiente e fiz as pazes com o meu feminino.

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Esse texto foi revisado pela mocinha Angélica Fontella <3

Erika Oliveira

Psicologa e Sexóloga, por curiosidade e vocação. Quando tinha 12 anos "devorou escondida" a coleção de livros sobre sexologia de sua mãe, ali nascia o interesse por uma das temáticas mais atraentes, enigmáticas e cheias de tabu: A sexualidade Humana. Na adolescência ensinava as amigas a como colocar absorvente, que siririca não engravidava, e quais eram sintomas da gravidez. Na juventude curtiu como muitas meninas, de beijos e carinhos entre meninas e meninos, conheceu o mundo BDSM ,as baladas GLBTS e por fim se apaixonou por um dentista de esquerda. Hoje é mãe da pequenina Eva,na maternidade sentiu necessidade de engajar-se na luta de igualdade de gêneros e emancipação das mulheres. Ativista feminista, se não está trabalhando, está brincando de pintar e contar historia com a sua filha, ou tomando uma cerveja com marido (aquele dentista de esquerda) conversando sobre as mazelas do mundo e como o amor é maior ato de revolução.

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