Visibilidade trans: Eu respeito, e vocês?

Olá mocinhas, tudo bem? No dia 29 de janeiro foi comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Esta data foi escolhida porque foi no dia 29 de janeiro de 2009 que, pela primeira vez no nosso país, travestis e transexuais estiveram no Congresso Nacional para falar aos parlamentares sobre suas realidades. Até então, essa população era reduzida a estereótipos de prostituição, loucura e promiscuidade. Quero aproveitar o espaço que esse blog me permite para refletirmos sobre a temática trans. Juntas, vamos, desde o início, passando pela fetichização da população trans, marginalização, família, aspectos da violência e respeito.

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O que é ser travesti e o que é ser trans

Travesti, na definição do dicionário Houaiss, é um substantivo de dois gêneros que significa “1. artista que, em espetáculos, se veste com roupas do sexo oposto” e “2. homossexual que se veste e que se conduz como se fosse do sexo oposto”. É, basicamente, uma pessoa cujo gênero designado no nascimento foi um, mas que objetiva a construção do gênero oposto por meio de suas roupas e/ou realizando procedimentos estéticos e cirúrgicos. Já os transexuais são pessoas que, ao nascerem, foram registradas e designadas a viver de maneira diferente daquela com a qual se identificam. Em alguns casos, a pessoa pode manifestar o desejo de fazer cirurgia de redesignação sexual, para “adequar” o corpo à mente. Isto não acontece com as/os travestis, que podem modificar suas figuras físicas com hormônios ou implantes, mas desejam manter o órgão sexual de nascimento, digamos assim.

A doutora Carmita Abdo, psiquiatra e responsável pelo projeto Prosex da Faculdade de Medicina da USP, contextualiza a transexualidade da seguinte forma: “É um transtorno de identidade sexual caracterizado pelo desejo irreversível de viver e ser aceito como pertencente ao sexo oposto, acompanhado por um sentimento persistente de grande desconforto e de inadequação em relação ao próprio sexo anatômico. Esta condição causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”.

Na comunidade científica existe o movimento para despatologização da transexualidade. Ou seja, fazer com que ela deixe de ser considerada transtorno e passe a ser vista como, de fato, é: um aspecto da identidade humana. Esse movimento começou na França, primeiro país onde a transexualidade deixou de ser considerada transtorno mental, em 2010. Em 2013, a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que iria retirar a transexualidade da lista de transtornos mentais da próxima edição de sua Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), fazendo o mesmo que a 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais

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Quem não lembra dessa cena linda, do Ivan, em “A Força do Querer”?

Fetichização, marginalização e violência

Em “A Força do Querer”, o personagem Ivan levou a questão da transexualidade para muitos lares brasileiros. Porém, mesmo com o aumento de matérias sobre o tema, muita coisa permaneceu igual. O Brasil ainda é o país que mais mata transexuais no mundo, e fazemos isso de forma hipócrita. Somos o país que mais consome pornografia com a temática trans, de acordo com uma pesquisa realizada em 2017 pela ONG Transgender Europe e pelo Redtube.

O fetiche pode explicar o motivo que leva homens heterossexuais a buscarem filmes em que os personagens sejam pessoas trans e/ou travestis. Uma fantasia que reforça o estigma de hipersexualização que cerca a população LGBTIQ, principalmente trans e travestis. Sites como XVídeos e RedTube tendem a reservar mais espaço para estes tipos de vídeos. Antes eram separados em seções gays, agora não se restringem mais a esta categoria e a procura só cresce a cada ano.

Para explicar a motivação e o interesse de homens héteros por pornografia trans, é preciso entender a existência de um pensamento dual que se divide entre desejo e desprezo. As pessoas têm muitos desejos que realizam por meio dessas experiências. Ao mesmo tempo, há também a repulsa por esses “seres desprezíveis” que “não deveriam existir”. É como se houvesse a possibilidade de “guardar” a pessoa trans em uma caixinha e só tirá-la de lá quando precisar dela para realizar seus desejos. Enquanto os brasileiros se fascinam com os vídeos de sexo envolvendo LGBTIQ, destilam o ódio contra a mesma população…

Uma outra informação que muito nos preocupa é que a estimativa de vida de uma pessoa transexual no Brasil é de 35 anos. A população brasileira vive, em média, 70 anos. Ou seja, condenamos as pessoas trans a viverem suas vidas pela metade.

A importância da família

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Recentemente, vi uma entrevista com a Gretchen em que ela dizia que o amor de uma mãe por seu filho não se altera por conta de um laudo médico. Isso reflete a importância da família no processo de aceitação da população LGBTIQ. Uma base acolhedora e respeitosa diminui as chances destas pessoas viverem situações de vulnerabilidade emocional e social. É isso que destaca a carta aberta de Luc, homem trans e filho do apresentador Marcelo Tas:

“Ter o apoio da minha família às minhas identidades sempre foi fundamental. Eu lembro que, quando era adolescente e falei para eles que era bissexual, a única reação que eu tive foi de amor incondicional e de apoio, algo que eu infelizmente via que para muitos dos meus amigos não era a norma.

Definitivamente, para dizer para a minha família que eu era ‘trans’, que era um menino, foi o mais difícil. Primeiro porque foi um processo longo para mim de autoconhecimento, e por muito tempo tentei negar para mim mesmo a minha identidade, em grande parte por medo de rejeição da minha família, dos meus amigos, das pessoas à minha volta. Tem muita gente ‘trans’ que fala que ‘sempre soube’. Eu não sou uma dessas pessoas. Eu era moleque quando criança, não gostava de boneca nem de rosa, mas honestamente, para mim, isso não tem nada a ver com ser ‘trans’. Isso tem a ver com sermos pessoas com gostos e afinidades distintas. Entender o meu gênero foi um processo que não tocou muito nisso, e nem na minha orientação sexual. Foi e segue sendo algo totalmente diferente.

No final das contas, me baseei na experiência de outras pessoas ‘trans’ que eu conhecia e mandei uma carta para os meus pais, explicando tudo, para que eles pudessem digerir no tempo deles e ter um espaço deles antes de falarem comigo. De novo, a reação deles foi de apoio incondicional e, por isso, eu digo que sou muito sortudo. Com pessoas ‘trans’ é ainda menos comum o apoio dos pais e é, na minha experiência, ainda mais fundamental, porque o mundo realmente não foi construído para abarcar pessoas como nós. Hoje em dia, a família, no geral, ainda dá umas escorregadas nos pronomes, mas são sempre muito atenciosos, fazem seu melhor, e cada dia as coisas estão mais bacanas. O mesmo com os meus amigos.

Não consigo imaginar como nada disso teria sido sem o apoio da minha família. Definitivamente, muito mais difícil, quase impossível. Acho que independentemente do que cada um de nós acredita que faz alguém ser trans, gay ou bi (biologia, criação, escolha própria, etc.) as pessoas vão crescer se identificando da forma como quiserem e não cabe a ninguém tentar mudar isso. A verdadeira escolha com a qual a família se depara é: amar e apoiar seus filhos, irmãos, pais, e parentes que são LGBT ou deixá-los, causando neles e em toda a família um enorme impacto, sofrimento, e distanciamento.
Eu e minha família tivemos a felicidade de estarmos na primeira opção.”

Luc Athayde-Rizzaro

Oportunidades de trabalho

O mercado de trabalho também tem papel fundamental para a população trans/travesti. Algumas empresas passaram a criar programas de inclusão e capacitação voltados para a população trans, como é o caso da rede de supermercados Carrefour. No ano passado, ela homenageou suas funcionárias trans no Facebook e divulgou curso de capacitação (oferecido a elas) para aumentar suas chances de ingresso no mercado de trabalho. Isso faz parte da Plataforma Valorizamos a Diversidade, que engloba diversas minorias. O objetivo é rejeitar qualquer discriminação e acolher a diversidade como fonte de riqueza, “algo que torna a organização e o mundo mais sustentáveis”, informa a campanha.

Infelizmente, este é um exemplo bom no meio de um cenário desanimador. O desrespeito às identidades trans acarretam na expulsão dos lares e das escolas. Consequentemente, essas pessoas são excluídas do mercado de trabalho, o que contribui para que a prostituição e a informalidade sejam a única alternativa para a sobrevivência, delas, contribuindo diretamente para um quadro de vulnerabilidade social.

A ausência de políticas públicas voltadas para educar a sociedade para o respeito e a valorização da diversidade, eliminando a ignorância a respeito das identidades de gênero e de orientação sexual e afetiva são resultados de um país que diz ser laico, mas que vive outra realidade. Sabemos, por experiência e vivência, que o Brasil sofre forte influência de setores conservadores e religiosos, que misturam política e religião como bem querem. Esses discursos fundamentalistas afastam a população LGBTIQ de direitos e contribuem para o extermínio dessa população.

É importante que a população trans e travestis tenha acesso a todos os serviços públicos e espaços sociais. Em especial, é de extrema importância que ela seja respeitada e tenha sua integridade física garantida. Não importa o que você acha ou deixa de achar: discriminação por raça, orientação sexual e identidade de gênero são crimes. Sua “opinião” pode literalmente fazer com que alguém se mate, então se não tem nada agradável a dizer, exerça seu direito de ficar caladinho.

 

* Esse texto foi revisado pela mocinha Angélica Fontella <3

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