Vídeos amadores: o sexo da vida real

Pode parecer clichê – e é -, mas a cada momento vemos o impacto que a Internet tem no dia a dia e no campo sexual as mudanças são bastante visíveis. As pessoas não precisam mais sair de casa para comprar brinquedos eróticos nem ir a uma banca de jornal para ver fotos de mulheres peladas. A pornografia, cada vez mais presente, mudou o modo como várias pessoas encaram o sexo – e isso nem sempre é algo bom. Cansados de ver orgasmos falsos e transas pouco convincentes, casais da vida real passaram a se filmar para apimentar a vida a dois. Os chamados vídeos amadores têm cada vez mais adeptos, que além de procurar cenas reais, sentem prazer em serem filmados e serem vistos nos momentos íntimos. 

Para escrever essa matéria, conversei com diversas mulheres que já fizeram vídeos de sexo amador. Todas elas são maiores de idade, consentiram com a filmagem e, nesse texto, receberam nomes fictícios para ter suas identidades preservadas. Não estou incentivando ninguém a filmar o sexo. Se você quiser se aventurar, lembre-se de conversar com o parceiro ou parceira para ter certeza que é uma vontade compartilhada. Já disse isto aqui, mas sempre bom lembrar que não tem nada mais sexy nesse mundo que o consentimento – principalmente em assuntos tão delicados como a filmagem de um momento íntimo.

Muito além do pornô

Ninguém pode negar que a indústria pornográfica mainstream criou expectativas irreais para o sexo. Para combater os orgasmos falsos e as transas pouco convincentes – sem falar na questão da exploração feminina nos sets -, algumas pessoas começaram a pensar em possibilidades alternativas para o velho pornô. Além da pornografia feminista, surgiu um movimento que visa a uma “revolução sexual online”, como o site Make Love Not Porn, criado pela britânica Cindy Gallop. De acordo com ela, o objetivo da página é promover um diálogo mais honesto sobre o sexo, fazendo um balanço sobre o que acontece na vida real e o que acontece nos filmes pornôs. Na sua palestra para o TED, Cindy diz que:

A pornografia tradicional está mais disponível na internet do que nunca e os jovens conseguem acessá-la cada vez mais cedo. Há uma geração inteira crescendo que acredita que o que você vê na pornografia é a forma que você faz sexo. E isso é particularmente exacerbado porque vivemos em uma cultura em que pais têm vergonha de ter uma conversa sobre sexo com seus filhos. Então não é surpreendente que a pornografia tenha se tornado educação sexual.

Inclusive, quem quiser pode ver a palestra completa aqui (sem legendas):

Em 2012, Cindy lançou o Make Love Not Porn TV, uma plataforma de vídeos de sexo real e caseiro que são postados pelos próprios casais. Segundo Cindy, é possível manter o anonimato mesmo publicando imagens próprias na plataforma e retirar as postagens a qualquer momento em que o usuário desejar. Além do Make Love Not Porn TV, existem outras plataformas. No Tumblr, há diversas páginas dedicadas a compartilhar imagens de sexo real. Já o SexLog, autointitulada a “maior rede social adulta do Brasil”, os usuários não-pagantes podem ver as fotos e vídeos postados; quem é assinante, além de poder conversar com casais e pessoas adeptos do swing, pode postar os vídeos de sexo real. O SexLog já tem mais de 5 milhões de pessoas cadastradas e quase 10 milhões de mídias compartilhadas. Ah, e para quem se interessou, a rede social também permite a transmissão de live cams; até o dia em que esse post foi escrito, foram 558.001 transmissões!

Luz, câmera, ação!

Mariana* sempre gostou de se exibir, desde a época da câmera digital: “Sempre achei um tesão o exibicionismo e o voyeurismo”. Namorando há três anos alguém que compartilha desse interesse, Mariana revela que o ato de filmar é, muitas vezes, “meio natural”, mas confessa que eventualmente o casal já tem a intenção de compartilhar o vídeo. Ah, sim: ela participa de um grupo e compartilha o material com alguns amigos e amigas. Assim como ela, Cristiane* também sempre gostou do exibicionismo, mas foi só quando começou o atual relacionamento que pode colocar em prática a fantasia. O casal tem contas no Twitter e outra no Tumblr para postar as fotos e só começaram a fazer vídeos quando entraram no SexLog. Por pedido do casal, não vamos divulgar os perfis aqui. “Tem gente que não entende, acha que é bagunça”.

Porém, nem todo mundo que faz vídeos amadores os compartilha. Lúcia* e seu namorado já fizeram alguns vídeos amadores, mas são só para eles, que namoram à distância: é algo usado apenas para apimentar a relação. Para Lúcia, o filmar que é excitante, bem como ver a dois posteriormente. Este ponto, do casal curtir o vídeo depois, foi unanimidade em todas as entrevistas: a exibição, mesmo que seja para o parceiro ou parceira, é bom: “Essa ideia de se exibir é gostosa. É fetiche puro mesmo, não tem explicação”, fala Mariana.

A palavra é: segurança

Também não podemos ignorar o mal causado pelo vazamento de sex tapes, o revenge porn ou pornografia de vingança, que arruína a vida de muitas meninas, levando-as, frequentemente, à morte. Então, antes de apertar o “rec”, conversem bastante se esse é um desejo do casal e o que vai acontecer com as fotos e filmagens em caso de término. Se vocês quiserem que a filmagem fique só entre vocês, desliguem a internet (wifi e 3G) dos celulares, caso filmem através deste dispositivo, antes da gravação ser iniciada, e só liguem novamente depois de deletar o arquivo.
Agora, se o objetivo for compartilhar os vídeos amadores na internet, sugiro que preservem seus rostos ou qualquer parte do corpo que possa identificar o casal, como tatuagem ou cicatrizes. Como já sabemos, a internet nem sempre é um bom lugar: pessoas vazam informações e vídeos de terceiros sem se importarem com os danos que podem causar.
*nome fictício

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