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Sexo

A importância do tratamento psicológico para quem vive com HIV

Vocês sabiam que o Brasil teve mais de 840 mil casos de Aids notificados nos últimos 40 anos? Pois é! Esses números são do Ministério da Saúde, que considerou pacientes que apresentaram sintomas da doença. Destes, 70% eram homens e 30%, mulheres. Já estamos cansadas de falar e reforçar a importância da camisinha em todas as relações sexuais – o preservativo é o único meio contraceptivo que evita a transmissão do HIV, vírus que “desenvolve” a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids).

Então, hoje, vamos fazer uma abordagem diferente! Conversamos com a psicóloga e sexóloga Priscila Junqueira, especialista em Sexualidade Humana e mestre em Ciências pela USP. E, desta vez, focamos nas pessoas que vivem com HIV e na importância do tratamento psicológico para elas. 

O impacto do diagnóstico

Não podemos negar que hoje em dia é bem mais tranquilo falar sobre a doença. Afinal, a forma de tratamento progrediu bastante e a sociedade está mais aberta para a discussão. Mesmo assim, é normal para aqueles que recebem o diagnóstico ficaram bastante abalados. É por isso que a sexóloga Priscila Junqueira destaca a importância de um acompanhamento psicológico em conjunto com os cuidados clínicos. “Aids, há tempos atrás, era vista como sinônimo de morte e isso trazia sintomas ansiosos, depressivos e até tentativas de suicídio. Hoje, ainda se têm quadros como esse, diante do preconceito e da autoestima abalada, por conta dos reflexos que medicamentos antirretrovirais causam no corpo, por exemplo. Tudo isso traz muita tristeza e leva até ao rompimento de relações.”

Um estudo feito com 1.260 pessoas em tratamento antirretroviral revelou que quem vive com HIV sofre mais com problemas relacionados à interação social do que com a ação do vírus no organismo. Enquanto 65% dos pacientes em tratamento avaliaram seu estado de saúde como “bom” ou “ótimo” (contra uma média de 53% na população geral), o cenário foi bem diferente nos aspectos psicológicos e sociais. Entre as mulheres soropositivas, 33% apresentavam grau intenso ou muito intenso de tristeza ou depressão. 47% das entrevistadas apresentavam grau intenso ou muito intenso de preocupação ou ansiedade. Entre os homens, o índice foi de 23% e 34%, respectivamente, e na população em geral, 15% e 23%.

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Para a coordenadora da pesquisa, Célia Landmann, esses números podem ser explicados pela falta de apoio social, pelo sentimento de descriminação e de solidão. Esses aspectos foram sugeridos pelos próprios pacientes quando perguntados quais eram as principais perdas de quem vive com HIV. A maioria (36,5%) respondeu “piora nas condições financeiras”, mas também foram destaques: “discriminação social” (20,9%), “falta de suporte familiar” (16,2%) e “discriminação pelos amigos” (15,9%).

Muitos chegam a abandonar os tratamentos clínicos e os medicamentos por causa dos impactos negativos. Desta forma, o acompanhamento psicológico serve para tentar reverter esse quadro.

Como funciona o tratamento psicológico nestes casos

As reações são diversas e cada pessoa que vive com HIV deve passar por um tratamento individualizado. “A pessoa precisa entender o que é viver com uma infecção sexualmente transmissível (IST). Será natural ela ter dúvidas, inseguranças, autoestima baixa, além de ter que saber lidar e superar o preconceito. O profissional acaba ajudando em todos esses aspectos”, afirma Priscila. E todas essas questões variam de acordo com o gênero e a faixa etária, como aponta a psicóloga: “Os adolescentes e jovens têm a fantasia de invulnerabilidade e isso pode dificultar a aceitação da condição de viver com Aids. Os adultos, principalmente as mulheres, têm o receio da gestação e transmissão para o bebê”.

Outro aspecto importante (e preocupante) é o crescente número de casos entre pessoas da terceira idade. Na última década, o número de pessoas com HIV acima dos 50 anos praticamente dobrou. Atualmente, 80% dos adultos entre 50 e 90 anos são sexualmente ativos – e a maioria faz sexo sem prevenção.

Um outro problema é a necessidade de lidar com o abalo emocional que é associar a doença à traição do parceiro ou parceira. Isto acontece principalmente com as mulheres, que se veem perdidas com a quebra da confiança no relacionamento.

É importante ressaltar que cada caso é único. Existem pessoas que se beneficiam mais do que outras de atendimentos psicossociais. O que importa é identificar as demandas dos pacientes e da área em geral, com o objetivo de promover a qualidade de vida daqueles/as que vivem com HIV. Então, mocinhas, se vocês conhecem alguém nessa condição, não corte os laços. Converse com a pessoa e ofereça toda a ajuda possível (sem colocar sua saúde mental em risco!). Assim, ajudamos para a desconstrução dos estigmas que cercam a doença.

 

* Esse texto foi revisado pela mocinha Angélica Fontella <3

Thayanne Porto

Jornalista de coração, alma e diploma, encontrou nas palavras o melhor modo de se expressar. Feminista em eterna construção. Apaixonada por livros, séries, drag queens e sua gata Julietta. Acredita que a revolução pode (e deve!) acontecer de dentro para fora - e por que não dentro de quatro paredes? Quer mandar um e-mail? Escreva para thayanne@quenemmocinha.com

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