Um bate-papo sobre Dominação/Submissão

Cinquenta Tons de Cinza foi um verdadeiro fenômeno. Mais de 100 milhões de livros vendidos e milhares de pessoas viram os filmes. O sucesso ultrapassou o mundo da ficção: a busca por conteúdos de sexo explícito por parte das mulheres aumentou consideravelmente após a estreia da trilogia. Depois do lançamento do primeiro filme, houve um aumento de 40% na procura feminina por termos como submission, spank bondage.

Por um lado, isso é bom. Fez com que muitas mulheres se abrissem e explorassem novas formas de sexo. No entanto, os ditos cinquenta tons não fazem nem cosquinha no que o BDSM realmente é. Pelo contrário: diferente do que muita gente pensa, a trama não é nem uma história de romance, nem de sadomasoquismo. BDSM é sobre cuidados mútuos, prazer mútuo e respeito mútuo. É sobre ter um relacionamento saudável entre Dominador/a e submisso/a – e nada no “romance” entre Christian Grey e Anastasia Steele é saudável.

Com isso na cabeça, convidei o Gladius Maximus, do Diário de um Dominador, para um bate-papo. Nós conversamos sobre a relação Dominação/submissão, relacionamentos abusivos e outros assuntos sobre o Universo BDSM. Confira!  

Estágios Dominação/submissão

Para Gladius, as relações do sadomasoquismo podem ser explicadas de duas maneiras: Dominador/dominado e possuidor/posse. É um universo fundamentado em hierarquia, “um tipo de relação que uma parte controla a outra de forma consensual”. E isso pode acontecer em diversos níveis. O primeiro estágio é o uso de práticas e posturas do BDSM para apimentar o relacionamento. “É o chamado ‘baunilha apimentado’, a zona mais básica e mais confortável para a maioria dos casais que querem experimentar algo novo”, afirma o Dominador.

O segundo é um mergulho mais profundo na camada dos fetiches, o que gera uma infinidade de situações com graus variados de intensidade na dinâmica de Dominação/submissão. Por fim, estão as relações BDSM, que precisam estar em um patamar superior de entrega, confiança e verdade. Conforme o casal descobre as suas compatibilidades, a tendência é que a relação se intensifique. A parte que se submete libera mais e mais poder para ser exercido sobre ela pela parte que domina. “Essa, em contrapartida, aceita esse poder e o exerce, completando um circuito de retroalimentação que só aumenta a conexão entre as partes.”

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Cena retirada do filme “An Appointment with My Master”, disponível no XConfessions

O “ápice”, digamos assim, é a relação 24/7: a parte que se submete serve (ou está à disposição) vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Nesse momento, a relação torna-se de posse completa e existem algumas visões diferentes sobre o momento em que ela acontece. Para alguns praticantes, o 24/7 só acontece quando a parte que serve mora com o seu Dominante. Para outras, como Gladius, basta que seja sua única relação afetiva. Ou seja, não possuir paralelamente uma relação baunilha. A relação 24/7 é tão emblemática que o Dia Internacional do BDSM é comemorado no 24 de julho. Ou seja, 24/7.

O tal do contrato

Um dos pontos mais marcantes de Cinquenta Tons de Cinza é o contrato que Grey faz Anastasia assinar no início do relacionamento. De acordo com o documento, o CEO teria controle sobre muitos aspectos da vida da estudante, e não só em relação ao sexo. Para quem não é familiarizado com o mundo BDSM e leu o livro, pode-se ter a impressão de que toda relação de Dominação/submissão é desta forma… Só que não é por aí que a banda toca.

Para Gladius, isso acontece porque essa história foi escrita por quem gosta de usar o tema BDSM, sem manjar do assunto. Isso gerou situações e personagens estereotipados, além de um Dominador que, na verdade, não está lá. No mundo real, o lado submisso de Anastasia nunca poderia ser aflorado de verdade:

É claro que a simples existência de um Dominante não seria capaz de transformar ninguém em submisso, já que o desejo de se submeter precisa fazer parte em algum grau de sua natureza. Mas o que se vê em “50 Tons de Cinza” é apenas um romance “soft porn” com pegada fetichista, e não uma relação BDSM.

O que importa é a hierarquia

No fim, o que define uma relação BDSM é a existência de hierarquia. Ou seja, uma parte tem que dominar a outra, com ambas se completando nesse processo. O que acontece a partir daí são coisas específicas e que dependerão exclusivamente das partes envolvidas e das suas particularidades (e peculiaridades). Gladius ressalta que o importante é que uma parte esteja controlando/dominando a outra. Se isso acontece só na cama ou se estende para outros aspectos do cotidiano… Bem, aí já é algo que diz respeito à dinâmica de cada relação. Vai variar de acordo com os interesses, as limitações e a forma que cada parte vê o mundo a sua volta. É um processo único para cada casal.

Sobre limites e abuso

Algo que é sempre bom ressaltar é que o Universo BDSM funciona à base de um simples fundamento: S.S.C:

  • A Sanidade marca a importância da relação não atrapalhar outros aspectos da vida, como família, trabalho e amigos.

  • Segurança está relacionada às questões de cuidados preventivos em relação a doenças e à habilidade com que são praticadas as técnicas dentro do BDSM.

  • Por fim, temos a Consensualidade. Tudo o que acontece em uma relação BDSM deve ter a concordância de todos, independente do número de pessoas envolvidas.

Na minha opinião, o S.S.C pode (e deve!) ser usado para as relações baunilha. Quando um parceiro cruza a linha da concordância mútua, a relação passa a ser abusiva. E isso vale para todos os aspectos de todas as relações, não só as amorosas.

Ainda neste tópico… É obrigação do Dominante guiar, cuidar e exercer o poder recebido com responsabilidade. Tudo deve ser feito dentro do S.S.C. A parte submissa deve seguir todas as regras do território do seu soberano e pode cortar o fluxo de poder a qualquer momento, caso acredite que o Dominante não mereça mais sua devoção e subserviência.

Como entrar neste universo

Como Gladius bem explicou no primeiro tópico, existem vários níveis dentro de um relacionamento BDSM. Não tem como chegar ao topo sem passar por todos os degraus. Porém, qualquer relação entre pessoas (independente de gênero, orientação e quantidade) pode experimentar o que quiser (e o quanto quiser) na trilha de autoconhecimento, até chegar ao tipo de relação mais adequada. Para o Dominador, é importante deixar claro que não existe a obrigação de chegar ao topo da escada, para vivenciar o BDSM. “É algo que pode ser vivido pelo prazer puro e simples de saborear suas práticas e hierarquia, mas nem todos desejam ou podem transformá-lo em um estilo de vida, como é meu caso”, esclarece o Dominador.

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Lidando com os ciúmes

Algo que eu sempre tive curiosidade de saber é como os Dominadores lidam com ciúmes. Afinal, uma pessoa pode dominar outras e, como todo relacionamento interpessoal, pode rolar ciúmes por parte de alguém. Para Gladius, “sentimentos não são coisas que podemos suprimir ou ignorar. O que devemos, e isso em qualquer tipo de relação, é aprender a lidar com eles”.

Sobre essa temática, Gladius lembrou de um detalhe com o qual concordo 100%. Ciúme é algo que não afeta as pessoas “bem resolvidas” e sua ocorrência serve como um alerta. No Universo do BDSM, significa que a pessoa não tem construção psicológica para jogar esse jogo. E os ciúmes podem acontecer nas duas partes, sendo igualmente prejudiciais. Um Dominador com ciúmes demonstra que tem problemas de autoafirmação, autoestima e insegurança. Se rola na parte que se submete, é sinal de que ela não está sendo bem conduzida por um verdadeiro Dominante. Também indica que ela não entendeu que sentir ciúmes só é possível quando se tem medo de perder o objeto do ciúme… Só que no mundo do BDSM, a parte que se submete não possui nada para perder.

 

Quero agradecer a participação especial do Gladius Maximus e a paciência que ele teve ao responder minhas perguntas. O Universo BDSM é muito grande e diverso, sendo impossível abordar todos os aspectos em um texto só. Queremos (e vamos!) continuar falando sobre esse tema, então precisamos saber quais são as principais dúvidas de vocês, mocinhas. Podem mandar suas sugestões pelos comentários ou para thayanne@quenemmocinha.com.

 

Esse texto foi revisado pela mocinha Angélica Fontella <3

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