Sobre BDSM e abuso

Muitas pessoas de fora do BDSM acreditam que esse submundo é abusivo. Afinal de contas, as práticas envolvem dor, dominação e submissão – mas o abuso passa longe das masmorras. Essa confusão gera ainda mais preconceito em relação aos praticantes e afasta possíveis curiosos. Por isso esse post é para desmistificar esse assunto, deixar bem claro o que é BDSM e o que é abuso, seja ele físico ou psicológico.

Sobre abuso

Diferentes tipos de abuso

É horrível pensar que a qualquer momento podemos ser vítimas de algum tipo de abuso. Mas, infelizmente, é a nossa realidade: mais de 500 mulheres são vítimas de agressão física a cada hora no Brasil. Um levantamento feito pelo Datafolha apontou que 9% das entrevistadas relatam ter levado chutes, empurrões ou batidas, enquanto 10% diz ter sofrido ameaças de apanhar. Também há casos de ameaças com facas ou armas de fogo (4%), lesão por algum objetivo atirado (4%) e espancamento ou tentativa de estrangulamento (3%).

Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, não é só agressão física que configura abuso – a verbal também conta. A mesma pesquisa apontou que 40% das mulheres com mais de 16 anos sofreram assédio dos mais variados tipos em 2016, como receber comentários desrespeitosos na rua (36%). Além disso, 22% afirmou ter recebido insultos e xingamentos ou terem sido alvo de humilhações. Se identificou com alguma dessas estatísticas? Pois é, gata, entra pro bonde. E eu não tenho nem coragem de falar para vocês denunciarem porque é aquela história: quando não denunciamos, nos atacam nas redes sociais. Quando denunciamos, o juiz considera que não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça. Sendo que o cara tinha cinco passagens pela polícia como suspeito de estupro. Não importa o que fazemos, somos desacreditadas e humilhadas. É foda.

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Na moral, vai se fuder

Relacionamentos abusivos e como identificar se você está em um

Esses são os tipos de abuso mais “fáceis” de serem identificados. Porém, tem alguns que são mais sutis, o que levam muitas mocinhas a ficarem em relacionamentos tóxicos sem nem perceberem. Esse assunto foi muito discutido no início do ano: no BBB 17, Emily, que se consagrou a vencedora da edição, se envolveu com Marcos. Logo ficou claro para os participantes do programa e para a audiência que o relacionamento dos dois era abusivo, com cenas de agressões físicas e psicológicas. Quando Marcos foi expulso, Emily entrou em desespero, o que só evidencia que nem sempre o relacionamento tóxico é claro para a vítima. Para saber se esse é o seu caso, sugiro vocês verem esse vídeo incrível da Juju e darem uma lida nessa matéria do Buzzfeed.

BDSM

BDSM é um acrônimo para a expressão “Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo”. Dentro desse mundo, a violência existe. Tem gente que sente prazer apanhando, tem gente que gosta de bater. Em alguns casos, o spanking e a flagelação podem tirar sangue do submisso. Mas isso não necessariamente configura abuso por um motivo bem simples: SSC. Esse é quase o “mote” do BDSM e significa São, Seguro e Consensual. Todas as práticas são consentidas, feitas para o prazer de ambos. O dominador pode até bater, mas não vai machucar o sub. Existe uma grande preocupação em não provocar nenhum dano permanente – o princípio básico de um dominador é a preocupação com segurança.

Não estou dizendo que não há abusadores dentro do meio BDSM. Infelizmentes, eles estão em todos os lugares. O que eu quero deixar bem claro é que os participantes dessa comunicação são cuidadosos e cientes que devem ter consentimento autônomo e responsável dos seus parceiros. Por isso a safeword é tão importante: ela é usada para indicar que se atingiu determinado tipo de limite (físico ou psicológico) ou que algo não está certo. Da mesma forma o aftercare é parte importantíssima, pois representa o carinho dado ao submisso depois da sessão para “desligá-lo” da violência.

Algumas diferenças básicas entre BDSM e abuso

No BDSM, todo mundo está feliz

Para quem é “baunilha” (que não pratica BDSM), algumas coisas podem ser desagradáveis, como golden shower. Mas para quem está no meio percebe o ato como erótico ou sensual, ou seja, há prazer para quem aplicada e há prazer para quem recebe. No abuso, uma pessoa se aproveita da outra e a vítima não tem prazer naquilo. Então façam um favor para mim e para a humanidade e parem de falar que “mulher gosta de apanhar” ao se referir a uma relação de abuso. Ninguém gosta de ser abusado, ninguém escolhe estar em um relacionamento tóxico. Nem sempre a pessoa sabe que está em um ou sabe como sair daquela situação.

BDSM é livremente consentido

Foquem nessas duas palavras: “livremente” e “consentido”.
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No BDSM, tudo pode ser iniciado e interrompido a qualquer momento pelos praticantes. Se o submisso atingiu um limite ou não está confortável com alguma prática, ele deve falar a palavra de segurança. O dominador deve parar imediatamente, sem culpar ou humilhar seu parceiro ou parceira. Da mesma forma, ninguém pode ser coagido a nada nas práticas sadomasoquistas. Se você foi chantageada ou alguém insistiu muito para você fazer algo que não se sentia confortável, fuja. Não é um relacionamento BDSM saudável.

O abuso não é negociado. Há sempre manipulação, constrangimento e/ou coerção – nesses casos, o consentimento é minado por ameaças ou agressões.

O dominador tem zelo pelo parceiro

Um parceiro BDSM minimiza o dano causado por suas ações; em uma relação abusiva, o agressor reduz a vítima à um objeto de uso, que pode ser um saco da pancadas. Mesmo assim, é importante se perguntar se todos os participantes sabem o que estão fazendo e se eles aprenderam a exercer suas atividades de forma segura. Uma vez, conversando com uma dominatrix, descobri que os praticantes passam anos estudando suas práticas. Não é à toa: a pessoa tem que ter muita segurança no que está fazendo. Qualquer errinho pode causar muita dor ao parceiro/parceira, e esse não é o objetivo do BDSM. A violência pode ser o meio, mas nunca é o fim.

Preocupação com o psicológico

Do ponto de vista psicológico, os abusadores destroem suas vítimas., deixando-as depressivas, inseguras e sem autoestima. Enquanto após uma sessão de BDSM a submissa irá sair feliz, realizada e entendida.

Entenderam, mocinhas? Essas diferenças são fundamentais para diferenciar abuso de BDSM. Se você acha que está em um relacionamento tóxico, converse com uma pessoa de confiança. Você tem direito de ser feliz! 

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