Corpo

Seis meses sem usar sutiã

Hoje abrimos espaço no blog para Nicoli Frantz, que está há seis meses sem usar sutiã. No texto a seguir, ela compartilha um pouco sobre sua experiência, seus motivos e como não usar uma simples peça de roupa mudou sua relação com o corpo. Confira:

Eu lembro do meu primeiro sutiã. Mas quem é que não se lembra? É visto como um ritual de passagem, onde você deixa de ser criança e passa ser adolescente. Mas eu só tinha 11 anos.

No meu primeiro colégio, que só ia até a quarta série, enquanto todas as minhas amigas já tinham menstruado e já tinham desenvolvido um pequeno seio, eu era uma das poucas que não tinha virado “mocinha”. E isso tinha me chateado tanto porque nós tínhamos a mesma idade, mas eu me via inferior à elas. Eu até cheguei um dia ir à aula usando algodão debaixo da blusa para fingir que também tinha peito.

No ano seguinte, entrei para um novo colégio que era católico. No primeiro dia de aula, a diretora veio na sala para nos receber e nos dar um aviso:  as meninas deveriam usar sutiã porque a blusa era transparente e que os meninos iriam ficar olhando. Quem desrespeitasse essa regra, iria levar suspensão. Na manhã desse mesmo dia, minha mãe tinha comprado meu primeiro sutiã. Ele era de pano, elástico e da cor branca. Claro que eu fiquei feliz, até porque era meu primeiro sutiã. Este não me machucava, mas também não havia razão de usar porque nem seio eu tinha. Até era compreensível usar na escola, já que a blusa era transparente; mas fora dela, não.

Foi só na sexta série que eu me recusei a usar sutiã fora da escola porque percebi que não havia motivo para isso, pelo menos não até que meus seios se desenvolvessem. Viajei com minha família para a Alemanha nesse mesmo ano. Curtimos bastante, tiramos várias fotos lindas, mas quando voltamos e prestei atenção naquelas fotos, vi que faltava alguma coisa: ter seio. E por causa disso, no ano seguinte, comecei a usar sutiã de bojo para fingir que tinha mais do que realmente tinha.

Da sétima série até o terceiro ano, eu só saia de casa usando sutiã de enchimento e me recusava a usar maio, porque o biquini também tinha que ter enchimento. Eu fiquei neurótica com a aparência. Eu só queria poder ter um seio maior para não sofrer bullying por causa disso.

Nota: Eu nunca usei sutiã dentro de casa e também nunca dormi com ele, exceção nos casos que eu apagava na cama e esquecia de tirar, porque me incomodava muito.

Foi apenas em 2014, quando eu já estava na faculdade, que comecei a diminuir a frequência. Eu só usava sutiã quando ia para a aula, shopping, bares, sociais com meus amigos, enfim. Mas se precisava ir comprar algo na padaria, farmácia e passear com os cachorros, eu colocava um vestido velho sem sutiã e não tinha problema. Já tinha superado o biquíni sem bojo.

Conheci a campanha #Freethenipples (“Liberte o mamilo”), que argumenta que às mulheres e aos homens deveria ser concedida a mesma liberdade e proteção, nos termos da lei. O movimento visa promover a igualdade de gênero e se opor a objetificação sexual.  E também conheci o movimento “No bra, no problems”, que é um movimento por igualdade de gênero, direitos das mulheres e conforto.

E a partir disso, parei para refletir e percebi que todas nós, mulheres, nos sentimos “livres” no momento em que chegamos em casa e finalmente tiramos o sutiã. É como se fosse tirar um peso dos nossos seios.

No ano de  2015, decidi que quando fosse vestido, não usaria mais sutiã em baixo dele. Primeiro porque o tecido era grosso e não dava para ver o mamilo, que mesmo não sendo mais tabu, ainda não estava preparada. E também a sensação de usar sutiã no calor é horrível.

Depois de ter contado toda a minha história desde o início, finalmente contarei como foi a minha experiência de não usar sutiã por seis meses. Esperei me mudar para a Alemanha esse ano para poder começar com menos julgamentos.

A experiência foi dividida em duas partes: Como foi não usar sutiã na Alemanha por três meses e como foi não usar sutiã no Rio de Janeiro nos três meses seguintes.

Parte 1: Alemanha

Eu morei na Alemanha de 9 de Fevereiro de 2016 até 9 de Maio de 2016.

Em fevereiro, ainda era inverno e estava muito frio, ou seja, eu precisaria usar duas blusas de manga comprida, um casaco grosso em cima e um sobretudo mais grosso ainda por cima disso tudo. Imagina se eu ainda tivesse que usar um sutiã, que me incomodava, embaixo disso tudo? Não dava nem para ver que eu não estava usando nada. No final de março começou a primavera, que não era tão frio assim, mas eu ainda usava duas blusas de manga comprida. Em abril, esquentou ainda mais e foi possível usar uma blusa de manga comprida mais leve e o sobretudo. Em maio, a temperatura subiu muito e já poderia usar manga curta mas ainda não estava preparada para isso.

(Para entender um pouco, em todos os estabelecimentos e nas casas, tinham calefação, ou seja, era mais quente, quando você entrava, você tirava o sobretudo e ficava com as outras roupas.)

Na Alemanha, sem sutiã
Na Alemanha, sem sutiã

Aconteceram duas situações enquanto estive lá.

A primeira foi quando minha tia pediu para que eu experimentasse um vestido para ela ver como ficaria e, como eu ainda tenho vergonha de trocar de roupa na frente das pessoas, virei de costas, e tirei a blusa e nisso ela percebeu que não estava usando sutiã, achou estranho e me perguntou o motivo. Eu expliquei e ela deixou para lá — se fosse minha mãe teria feito um escândalo. Outra situação foi quando o garoto que eu ficava na Alemanha, percebeu no meio das carícias, que não estava usando sutiã e perguntou o porquê mas parecia mais por curiosidade do que repeensão, até porque depois ele concordou com o motivo. Tirando essas duas situações, que eram mais íntimas, ninguém na rua me encarou, nenhum amigo meu ficou perguntando o porquê dessa decisão e muito menos me julgou.

Quando fui à Itália no início de maio, estava com a temperatura parecida de 30º mas não tinha levado blusas mais quentes e também por medo que meu mamilo se destacasse muito, saia na rua com duas blusas de manga comprida e morrendo de calor. No meio do passeio, tive que tirar a blusa de baixo, e fiquei só com a de cima e puxei a manga para cima. Foi um sufoco passar por tudo isso. Mas o passeio e as fotos valeram muito a pena.

Conclusão: foi uma experiência excelente, só gostaria de ter aproveitado um pouco mais porque ainda ficava com peso na consciência, me perguntando se as pessoas estavam me julgando.

Parte 2: Rio de Janeiro

Depois de três meses cheguei aqui no Rio, sem saber se eu ia continuar com essa experiência ou não, se daria certo ou não. Se aqui as pessoas já julgam pela roupa que usa, imagina se você decidisse não usar mais sutiã?

Eu continuei a experiência, mas bem receosa, com medo da opinião dos meus amigos e até mesmo de ser abusada na rua. Em resumo, eu passei a escolher determinada roupa para que não ficar tão nítido, como roupas com tecido mais grosso; evitei roupas brancas e roupas que fossem mais soltinhas.

Nicoli no Rio, em agosto
Nicoli no Rio, em agosto

Todos meus amigos perguntaram se era verdade que eu não estava mais usando sutiã; alguns ficaram chocados  e outros apoiaram minha decisão. Atualmente, estou há oito meses nesse processo, mas depois desses seis meses sem usar uma única vez o sutiã (excluindo os casos que uso top quando faço RPG e biquíni para ir à  praia), comprei um sutiã que é perfeito para minha situação: ele é de pano, sem aquele arame que machuca e sem o formato pré-estabelecido. Este não machuca, mas evito usar ao máximo, só em caso de blusas brancas e soltinhas.

Tirando o medo do julgamento, a experiência pessoal de não usar mais sutiã tem sido maravilhosa, me sinto mais livre, leve e solta. Eu não reparo mais tanto quando não estou usando e quando corro, percebo que meu peito sobe e desce. Eu sei que para que tem peito grande, isso doí muito, mas para mim é uma sensação bem engraçada. O sutiã, na verdade, é um símbolo da opressão à qual as mulheres são diariamente submetidas. Minha a escolha de parar de usá-la ou evitá-las ao máximo foi minha e meu objetivo com essa matéria não é forçar ninguém a parar de usar, mas compartilhar minha experiência para quem quiser ler sobre e para quem pensa em parar também, e que não há problema nenhum.

Nicoli Frantz Schwaab

Mais conhecida como a gringa. Estou Cursando Comunicação Social. Feminista interseccional em eterna construção. Defensora dos fracos e oprimidos desde criança. Apaixonada por séries, filmes e livros. Sonha em morar na Alemanha e viajar o mundo. Autora do próximo Best-seller sobre minha vida sem graça.

5 Comentários

  • Ana

    Oi nicoli!! Mtomto legal sua experiência, acho libertadora e, honestamente, seus seios estão LYMDOS nas fotos, vc tem mais é que deixá-los livres msmo, haha! Mas queria, se nao for mto pretencioso, te propor uma reflexão também!! A maioria dos textos que eu leio por ai sobre não usar sutiã sao de mulheres magrinhas e com seios, senão pequenos, médios e acima de tudo, firmes e empinados, bem à altura do padrão de beleza imposto ao corpo feminino. E eu queria te dar a minha experiência, da menina gorda e que sempre, desde pré adolescente, tem o peito absurdamente grande e, acima de tudo, pesado. Honestamente, meus seios são horríveis. Cheios de estrias, profundas, mamilos marrons (nada de rosinha delicado), e bem caídos, alcançam meu umbigo. Bem, como vc pode perceber, minha relaçao com meu corpo é bem merda :(. Em especial com meus seios porque, a única maneira deu sequer achá-los aceitáveis (veja bem, aceitáveis, não bonitos!) é usando sutiã. E vou deixar de fora todo o drama de roupas que eu não posso usar por causa disso e blablabla. Veja bem, eu tenho plena consciencia de que isso é um problema meu de deixar que os padroes de beleza me façam comprar a ideia de que eu sou feia, mas é mto doloroso para mulheres como eu verem algm como vc, que atende a essas expectativas, dizer que o sutiã é uma opressao porque, pra gente, ele não evita só a dor fisica do dia a dia, mas a dor emocional também de ver seus seios caidos o tempo todo. É claro q vc não quer impor nada a ngm, pelo amor de Deus, eu sei disso! Sei que sua finalidade é dividir conosco uma experiencia que, pra vc, foi libertadora e empoderada! E grazadels por isso, haha!! Eu só queria vir aqui te contar a minha experiencia pq, assim como eu nunca vou saber a dor de ser considerada “menos mulher” ou “feia” por ter seios pequenos, vc tmb nunca vai saber a dor que é ter peitões que basicamente não te deixam fazer nada, sequer se amar. Acho que é sempre mto legal e multiplicador a gente estar sempre compartilhando essas exposiçoes, não pra contrapor opinioes, mas pra gnt ter uma consciencia mais ampla do que algo é ou representa pra todas nós mulheres, com nossas diferentes histórias <3

    • Nicoli Schwaab

      Nicoli Schwaab

      Oii, Ana!

      Obrigada pelo seu comentário, agradeço muito!

      E vou te contar uma coisa, eu demorei para escrever esse texto porque eu estava com medo desse tipo comentário, que eu acho muito válido.

      Eu até ia falar sobre isso, mas acabei focando mesmo na experiência em si. Apesar de que eu considero muito isso que você falou desde que eu considerei tirar o sutiã.

      Deixar de usar sutiã é ao me ver uma libertação, mas é claro que concordo com você, o fato de eu ter seios pequenos, facilita muito para mim, eu tenho até mais privilégio nisso mesmo que seja bom para todas nós.

      Eu já conversei com varias amigas gordas e/ou que tinham seio grande e elas já me falaram que realmente é muito pesado e que o sutiã o segura. Já me contaram que preferem dormir com sutiã até. Isso eu realmente nunca vou saber como é.

      Então, sim, eu sei que a minha escolha teve uma facilidade maior do que se você decidisse deixar de usá-los mas tenho que te dizer que você escolhe o que fazer com o se corpo, mas seria bem importante você se amar, não tem nada de feio ter peitos grandes que vão até o umbigo ou que tenham estrias. É o seu corpo.

      E como tenho que falar sempre, haha, não, eu nunca sofri de magrofobia AHHAHA. Acho isso ridículo. Mas sofri muito bullying por não ter peito. E isso afetou muito meu psicológico. Como contei da história da minha vida, eu tinha que colocar bojo no sutiã para os outros e não para mim, entende?! Porque apesar de tudo, mesmo sendo pequenos, eu acho eles bonitos. Não necessariamente por causa de um padrão e mesmo se fosse por causa de um padrão. Para eu conseguir me aceitar, ainda está em construção, então, ficar sem sutiã foi libertador para mim, porque estava fazendo algo por mim e não pelos outros.

      Ou seja, se você não quiser ficar sem sutiã, não precisa. Nunca obriguei ninguém. Mas que você faça as coisas que você se sinta bem fazendo. Sempre.

      E adoraria que você também pudesse fazer um texto para o blog contando da sua história, do outro ponto de vista, sabe?!

      E ame seu corpo, garota!

      E obrigada pelo seu comentário e por compartilhar sua experiência.

      Beijos. ❤️

  • Jess

    Oii, adorei seu relato! Tenho uma dúvida, desde que você começou a não usar mais sutiã, sentiu alguma diferença nos seios? Tipo, eles mudarem de forma ou algo do tipo? Bjss

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