Relacionamento abusivo: por que ela não larga o embuste?

Olá meninas, turobom? Vamos terminar o ano com um tema super delicado, mas que infelizmente as mocinhas conhecem bem. Hoje vamos falar de agressão física contra as mulheres. Quem nunca passou, provavelmente conhece pelo menos uma vítima. Esse assunto teve bastante destaque esses dias, com a prisão do cantor Naldo. Ele foi acusado de porte ilegal de arma, lesão corporal e injuria contra sua esposa Ellen, mais conhecida como Moranguinho. Quase duas semanas depois, foi notificado que Ellen havia perdoado Naldo e que acreditava de verdade que ele sentia muito. Os dois voltaram e a retomada do casal teve o mesmo burburinho que a notícia da agressão.

Se fosse apenas esse caso, poderíamos olhar de um ponto especifico. Porém é só procurar “homens famosos que já agrediram suas companheiras” que aparecem várias celebridades. Isso nos obriga a pensar que não se trata de casos pontuais, mas como um triste fenômeno psicocultural: machismo. Aqui no blog falamos de diversas formas como o machismo impera. Vamos falar mais uma vez sobre este tema, mas com uma outra visão. Por que algumas mulheres vítimas de violência não conseguem se desvincilhar do agressor? É claro que existem casos e casos, em especial aqueles em que a mulher é dependente economicamente dos seus parceiros. Mas esse não é o epicentro da questão e eu vou explicar o porquê.

Pegando o mesmo caso que iniciei esse texto: Ellen (ou Moranguinho). Ela já tinha renda e bens próprios antes do matrimônio. É famosa e teria como ganhar dinheiro para sustentar a si mesma e os filhos. Então podemos ver que nem sempre o dinheiro é a única razão pela qual as vítimas se mantém em relacionamentos abusivos. Existem motivos psicosociais que “empurram” essas mulheres a seus agressores e eu vou explicar alguns deles.

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Lágrimas de crocodilo: Novo hit desse encosto

Parte I: Sobre psique e consciência coletiva

Antes de iniciar a definição do conceito de arquétipo é importante entender como Carl Jung, um dos grandes teóricos da psicologia, dividiu a psique. Para ele, o inconsciente possui duas camadas. A mais superficial foi chamada de “inconsciente pessoal”, cujos conteúdos foram adquiridos individualmente e formam as partes constitutivas da personalidade individual, sendo passiveis de se tornarem conscientes. A segunda e mais profunda camada é o “inconsciente coletivo” e seus conteúdos são de ordem impessoal e coletiva, representando uma base da psique universalmente presente em todas as culturas e povos e sempre idêntica a si mesma.

Arquétipo da Mulher Salvadora: Contos de fada como a Bela e a Fera

Uma das manifestações do arquétipo são os mitos e os contos de fada. Para essa questão especifica quero destacar o filme Bela e a Fera, um dos mais populares e que recentemente teve sua versão live-action gravada pela Disney.

que nem mocinha - relacionamento abusivo - gif bela e a fera

Dentro de vários símbolos nesse conto, o que mais me chama atenção é a responsabilidade da Bela. No início, ela salva seu pai trocando de lugar com ele e se tornando prisioneira da Fera. Depois, ela salva a fera pelo seu amor, que quebra a maldição e faz todos do castelo voltarem à sua forma humana. Não é só na ficção que existe essa responsabilidade de “domesticar/salvar as feras/homens” – apesar de existir diversos livros e filmes que abordam essa temática do amor feminino mudando o homem “bruto”.

Dentro da psique de algumas mulheres existe esse desejo consciente/inconsciente de que são capazes de mudar o comportamento dos seus companheiros através do amor. Para elas, os homens vão deixar de ser “feras agressoras” para serem “príncipes”. Então, mesmo diante de episódios sucessivos de agressões, sejam elas físicas e/ou verbais, elas anseiam que seus parceiros mudem. E é além disso: acreditam que elas podem fazer eles mudarem com dedicação e amor.

Repetição de padrões e a banalização da violência.

Mulheres que foram criadas em famílias em que a figura masculina dominante (pai/avô/etc) era agressiva podem criar a ideia de que esse tipo de comportamento é “normal”. Assim, quando elas próprias se encontram em um relacionamento abusivo, banalizam o acontecimento, já que por muito tempo via suas referências femininas passarem por essa mesma violência.

Parte II: Ciclo abusivo

Quem está fora de um relacionamento abusivo acredita que ele é o tempo todo assim, o que não é verdade. Mesmo com episódios de violência, a relação apresenta momentos agradáveis – um intervalo entre a calmaria e a agressão, chamado de ciclo abusivo. Ele é dividido em três fases:

que nem mocinha - relacionamento abusivo - ciclo abusivo

1. TENSÃO

Na maioria das vezes, esses momentos não têm motivo ou são causados por coisas não-improtantes. Há interrupção brusca de comunicação com o alvo e o uso do silêncio passivo-agressivo. A vítima sente medo e confusão mental, passando a tentar apaziguar, compensar, reverter o comportamento tenso da pessoa abusiva.

2. INCIDENTES

Ocorrem “incidentes” e o relacionamento abusivo se faz presente no seu extremo: violências verbais, emocionais e/ou físicas. Há brigas, xingamentos, ameaças, vitimização, intimidação e culpabilização. Em alguns casos, há agressão e estupro matrimonial. Depois desses ato de violência, a vítima diz que o episódio não vai se repetir, porém…

3. RECONCILIAÇÃO E LUA DE MEL

O agressor pede desculpas e diz que “se exaltou”, “não vai acontecer de novo”. Pode até mesmo culpar a vítima por fazer com ele “perdesse a cabeça” ou por ter criado a situação que resultou no incidente. Algumas vezes nega que o abuso tenho ocorrido ou que tenha sido tão grave quando o alvo afirma. Minimiza e estipula “novas regras”, prometendo que as coisas vão melhorar dali para frente. O alvo se esforça para não ter novos incidentes e por um certo tempo, reina a calmaria. Entra a fase da “lua de mel”, onde o abusador fica “calmo” e o “incidente” é esquecido, “abafado” com agrados. Assim, o alvo crê que exagerou e sua crença na relação se fortalece novamente.

Depois, volta-se à fase 1. 

Parte III: Mas por que ela não denuncia?

Talvez essa manchete te diga o motivo:

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Vergonha, ou “Estigma Mulher de Malandro”

Mais de 60% das mulheres vítimas de violência não denunciam por vergonha. E não é a gente que tá falando isso não! Esse foi um dos destaque de uma pesquisa nacional sobre a violência contra a mulher, feita pelo Instituto Patrícia Galvão e o Data Popular, encomendada pela Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres. Apesar de 86% dos entrevistados concordarem que esses casos devem ser denunciados, 66% das mulheres vítimas de agressão têm vergonha que as pessoas saibam, principalmente quando são de classes mais altas. Agora imagina só: se Luiza Brunet, que é famosa, tem o apoio da família e poder aquisitivo para lidar com um processo, teve medo e vergonha de denunciar seu companheiro agressor… Imagina as mulheres pobres, que não tem mais ninguém? Ainda mais em um país onde as próprias Delegacias da Mulher não estão preparadas para receber esse tipo de denúncia e acolher as vítimas.

Filhos

Filhos ainda são os principais motivos para que as mulheres desistam da separação após serem agredidas por seus companheiros. Elas temem ser afastadas dos filhos, ameaça muito comum feita pelos agressores.

Reféns do medo

Como o ciclo de violência é crescente, inicia-se com violência verbal e depois vai para a física, as mulheres temem por suas vidas. Para ajudar as mulheres a identificarem se estão ou não em um relacionamento abusivo, criou-se o “violentômetro” com alguns dos comportamentos mais comuns dos agressores:

que nem mocinha - relacionamento abusivo - violentômetro

E como eu faço para ajudar a minha amiga que está em um relacionamento abusivo?

Primeiro passo e o mais importante: acolhimento. Não a julgue, dê carinho e atenção. Sim, sabemos que a culpa nunca é da vítima, mas ela acredita que sim. Em seguida, incentive que ela procure profissionais para ajudá-la nesse momento: psicólogos para auxiliá-la a reequilibrar sua integridade mental e advogados para orientar nos processos legais.

Lembrem-se: é incentivar, não obrigar. Quem está de fora acha que tudo deve ser feito o mais rápido possível, mas cada pessoa tem seu tempo de lidar com o que passou. Então, mocinhas, respeitem a decisão da sua amiga, queira ela denunciar ou não. Cada um encara a mesma situação de diferentes formas e impor sua opinião pode fazer com que você seja agressiva  perante a essa mulher já foi agredida diversas vezes.

Eu posso denunciar pela minha amiga?

Lembre-se que a sua denúncia pode salvar uma vida. Só no Brasil, , 1 em cada 5 mulheres já foi vítima de violência doméstica e, do total de mulheres assassinadas das mais diversas maneiras, 1 em cada 3 é morta pelo companheiro ou pelo ex. Sabe aquele papo de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”? Só serve para esses números piorarem. Ligue 180 (é de graça!), vá até a delegacia mais próxima (ou a de Defesa da Mulher) ou procure a Promotoria de Justiça. O 180 não precisa de identificação, ou seja, você pode fazer sua denúncia de forma anônima.

Vamos começar o ano bem, mocinhas? De pouquinho e pouquinho, deixamos esse mundo menos pior <3

 

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