Precisamos falar sobre a sífilis

Vocês sabem que eu adoro falar besteira, mas às vezes é preciso parar e falar sério. Na semana passada, o ministro da saúde, Ricardo Barros, admitiu que o Brasil vive uma epidemia de sífilis e alertou para o crescente número de casos. “Estamos tratando o problema como epidemia até para que resultados da redução sejam mais expressivos possíveis”, disse o ministro durante o anúncio de uma estratégia para combater a doença. Por isso, o post de hoje vai ser totalmente dedicado a sífilis, seus sintomas, diagnóstico, tratamento e o mais importante: o que você pode fazer para evitá-la.

Vocês lembram daquelas aulas de biologia em que o professor passava um bando de slides com fotos super nojentas das consequências de pegar uma DST? Relaxa que isso não vai acontecer aqui. Acredito que a tática do medo (“transem sem camisinha e é isso que vai acontecer!”) não surge efeito, porque as pessoas precisam entender, e não temer. Para ajudar a explicar melhor o que é a doença, trouxe de volta a linda da Bel Saide, que tirou todas as nossas dúvidas sobre a pílula do dia seguinte. Muitas das informações que vocês verão aqui também foram extraídas do site do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, ligado à Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Um breve histórico da sífilis

Para saber como chegamos aqui, é preciso voltar um pouco no tempo. Existem diferentes teorias de como a sífilis surgiu, sendo que a mais difundida é a que Cristóvão Colombo teria levado a doença de volta para a Europa depois de explorar a América, em 1492. De acordo com um artigo do site The Converation, a doença teria ganho mais força no continente europeu em 1495, quando soldados do exército do rei Carlos VIII da França a disseminaram após retornarem de uma invasão na Itália. A partir daí, a sífilis teria se tornado uma epidemia na região. Os prostíbulos (muito comuns na época) e o desconhecimento das DSTs teriam contribuído para o alastramento da doença, que matou milhares de pessoas entre os séculos XV e XVI.

sífilis - cristóvão colombo

Tô falando de você mesmo, babaca. Não só invadiu o continente americano, como acabou com os índios e ainda levou a sífilis pra Europa. Aposto que foi falta de louça pra lavar.

Porém, em 2010, pesquisadores da nossa pátria amada, Brasil, questionam o consenso e apontam para uma origem bem mais antiga: de acordo com eles, a sífilis teria emergido entre 5 mil e 16,5 mil anos atrás. A teoria veio de um estudo da paleopatologia (ciência que estuda as doenças em populações do passado). Em entrevista para o Estadão, a bióloga Sabine Eggers, da USP, mostrou uma tíbia de um indígena que teria convivido com a sífilis. Na fase mais avançada da doença, os ossos sofrem danos e, apesar do tempo, as lesões características da sífilis ainda podiam ser vistas.

Como eu posso pegar a sífilis?

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST), então, como vocês já devem ter advinhado, ela pode ser transmitida através do contato sexual sem proteção. E por “ato sexual” não me refiro apenas a penetração: a doença pode ser passada se você beijar uma lesão, assim como por sexo oral, vaginal e anal. 30 a 60% das pessoas expostas a sífilis primária ou secundária (já já vamos explicar melhor isso) contraem a doença. Além disso, ela também pode ser transmitida pela gravidez de uma mãe para o feto, durante a gestão ou o parto. Ah, e mais uma coisa: a transmissão também é possível por transfusão sanguínea, por isso muitos países são extremamente rígidos quando se trata desse procedimento.

Como a bactéria que transmite a sífilis morre muito rapidamente fora do corpo hospedeiro, é bem difícil contrair a infecção por assentos de banheiro, banheiras ou através da partilha de roupa ou utensílios de cozinha, então podem ficar um pouco mais tranquilas.

Os tipos de sífilis e seus sintomas

A sífilis tem quatro estágios, cada um com suas próprias características e sintomas. Além disso, existe a sífilis congênita, transferida da mãe para a criança durante a gestação — vamos dedicar um tópico só para esse tipo mais para frente no texto.

1. Sífilis primária

Normalmente adquirida por contato sexual direto com as lesões infecciosas de outra pessoa. Em 40% das ocorrências, se manifesta em uma única ulceração da pele firme, no local de entrada da bactéria, entre 10 e 90 dias após o contágio. A localização mais comum nas mulheres é no colo do útero (44% dos casos), nos homens heterossexuais, o pênis (99%), e nos homossexuais, no ânus e intestino reto (34%).  

A ferida não dói, não coça, não arde e não tem pus, e pode estar acompanhada de caroços na virilha. 

2. Sífilis secundária

Aproximadamente 33% dos que não tratam a sífilis primária desenvolvem o segundo estágio, caracterizado por manchas no corpo, principalmente nas palmas das mãos e plantas dos pés. Os sinais e sintomas aparecem entre seis semanas e seis meses do aparecimento da ferida inicial e após a cicatrização espontânea. Peço desculpas agora: eu disse que não ia postar fotos à la professor de ensino médio, mas essa é necessária para você identificar o tipo de mancha que pode surgir.

síflis -- manchas

As manchas não coçam e podem surgir caroços no corpo. O portador da doença pode sentir dores musculares, febre, dor de garganta e dificuldade para engolir. O problema é que esses sintomas costumam sumir sem tratamento, o que faz a pessoa não procurar algum médico e, mais uma vez, a bactéria fica inativa no organismo.

3. Sífilis latente

Não aparecem sinais ou sintomas. É dividida em sífilis latente recente (menos de um ano de infecção) e sífilis latente tardia (mais de um ano de infecção). A duração é variável, podendo ser interrompida pelo surgimento de sinais e sintomas da forma secundária ou terciária.

4. Sífilis terciária

Pode surgir de dois a 40 anos depois do início da infecção. Costuma apresentar sinais e sintomas, principalmente lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte. Complicações neurológicas nesta fase incluem a “paralisia geral progressiva” que resulta em mudanças de personalidade, mudanças emocionais, hiper-reflexia e pupilas de Argyll Robertson, um sinal diagnóstico no qual as pupilas contraem-se pouco e irregularmente quando os olhos são focalizados em algum objeto, mas não respondem à luz; e também a Tabes dorsalis, uma desordem da medula espinhal que resulta em um modo de andar característico. Já as complicações cardiovasculares podem se manifestar através da aortite, aneurisma de aorta, e regurgitação aórtica, uma causa frequente de morte.

Extra: Sífilis decapitada

É aquela que foi passada por transfusão sanguínea. Não apresenta a primeira fase da doença, começando na segunda etapa. Como falamos ali em cima, a maioria dos países é muito rígida com quem quer doar sangue, e a pessoa tem que passar por uma série de exames antes de poder, de fato, doar. Porém, alguns estudos, apesar de não comprovarem diretamente a transmissão por seringas contaminadas, permitem assumir que os usuários de drogas injetáveis constituem um grupo de risco.

Me identifiquei com alguns sintomas, o que eu faço?

Miga, corre para um médico ou para a unidade do SUS mais próxima. Lá, eles disponibilizam o teste rápido de triagem, que é prático e de fácil execução. O resultado sai em, no máximo, 30 minutos, e não precisa de estrutura laboratorial. Se der positivo, eles vão coletar uma amostra de sangue, que será encaminhada para um teste laboratorial para a confirmação do diagnóstico. Em caso de gestante, o tratamento deve ser iniciado com apenas um teste positivo, sem precisar aguardar o resultado do segundo teste.

sífilis -- tr

Com vocês, o kit do teste rápido. Simples, rápido e prático.

A sífilis tem cura?

Sim, mas ela não se cura sozinha. Se você realmente tiver a doença, deve ir ao médico o mais rápido possível. O tratamento de escolha é a penicilina benzatina, mas só um profissional de saúde pode te passar as informações e dosagens adequadas, que variam a cada estágio da doença. Apesar de simples, o tratamento é doloroso: “São duas injeções, uma em cada banda da bunda”, explica Bel. Ui!

E nos casos das mães que tem a doença?

A sífilis congênita precisa de cuidados especiais. Ela pode se manifestar logo o após o nascimento, durante ou após os primeiros dois anos da vida da criança. Na maioria dos casos, os sinais e sintomas já estão presentes nos primeiros meses de vida. Ao nascer, o bebê pode ter pneumonia, feridas no corpo, cegueira, dentes deformados, problemas ósseos, surdez ou deficiência mental. Em alguns casos, esse tipo da sífilis pode ser fatal.

Quando a sífilis é detectada na gestante, o tratamento deve ser indicado por um profissional da saúde e iniciado o mais rápido possível. O tratamento é o mesmo, também feito penicilina benzatina, o único medicamento capaz de prevenir a transmissão vertical. A diferença é o número de dosagens: podem ser até três por semana. O parceiro ou a parceira sexual também devem sem testados e tratados para evitar a reinfecção da futura mamãe.

Se a mãe foi diagnosticada com a doença, o bebê deve passar por uma série de exames de sangue, além de punção lombar e um tratamento com antibióticos venosos por 10 dias.

Tá, mas por que estamos vivendo uma epidemia?

Elementar, caras Watsons (sim, Watson pode ser mulher — vejam Lucy Liu quebrando tudo em Elementary). Essa epidemia acontece por dois motivos: o crescente número de casos e a falta de remédio para combater a doença.

Ao meu ver (e isso é minha opinião de leiga), parece que as pessoas perderam o medo das DSTs. Acham que, se acontecer algo, é só ir ao médico, tomar um bando de remédios e é isso aí. Elas minimizam as consequências dessas doenças, acham que vão conseguir superar tudo. Essa mania de super-herói é bastante comum nos jovens, que acham que são invencíveis. Como alguns dos sintomas da sífilis desaparecem naturalmente, a maioria das pessoas não sabe que está contaminada e, ao fazer sexo sem proteção com outras, acabam passando a doença a diante. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, o número de adultos contaminados aumentou em mais de 600% nos últimos seis anos. Aproximadamente sete pessoas são infectadas todos os dias pela bactéria Treponema pallidum, que causa a sífilis.

 No caso das mamães, a situação também preocupa. Entre 2005 e meados de 2014, mais de 100 mil casos de sífilis foram registrados entre gestantes no Brasil. Ao longo do ano de 2013, a taxa de detecção da doença em mulheres grávidas era de 7,4 infecções para cada mil nascidos vivos, com um total de 21.382 casos. Já em 2014, só nos primeiros seis meses, dados preliminares apontam um total de 28.226 infecções, o que resultaria em uma taxa de detecção de cerca de 9,7 casos em gestantes para cada mil nascidos vivos.

O problema é que, não só os números de caso estão crescendo, como a disponibilidade do remédio está caindo. Uma matéria publicada pela Agência Brasil afirma que o desabastecimento da penicilina ocorre em diversos municípios do país. Bel aponta que a situação está bem crítica nas farmácias, mas é possível encontrá-lo nos hospitais. A principal causa apontada para a dificuldade na aquisição é a falta de matéria-prima para a produção do medicamento. A matéria segue e afirma que empresas recusaram readequar seus preços, além das empresas recusarem em assinar contratos com cláusulas de garantia de fornecimento.

Não quero pegar sífilis. O que eu faço?

NÃO TRANSE SEM CAMISINHA. Entenderam? E não é só penetração. Não façam sexo oral sem camisinha. Converse com seu parceiro ou parceira para vocês fazerem testes periodicamente – ainda mais se vocês não forem fixos. E, mesmo se vocês forem, não ignorem os exames. Você pode ser 100% fiel, mas nada garante que a outra pessoa também será. Fique bastante atenta aos sinais do seu corpo e, se notar qualquer coisa fora do normal, ou se identificar algum dos sintomas que foram citados aqui, procure um médico. Não importa se você ficou boa logo, pode ser sinal da doença.

Vamos cuidar mais de nós mesmas, ok?

4 comments

  1. Giovanna Alves Médici says:

    Eu amo o blog, vc e a Érika são incríveis…
    Eu queria fazer uma perguntinha, sou mãe de um garotinho de 4 anos e observo que ele tem mania de tocar o próprio pênis.
    É normal?
    Eu repreendo ou deixo?
    Socorro meninas , vcs precisam me dar esse help

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