Pornografia de vingança: vamos falar sério?

Eles eram amantes de escritório. Ela não queria mais, terminou tudo. Ele, ofendido e magoado, mostrou para os outros homens do escritório a foto Dela pagando um boquete. Entre incentivos e repreensões dos colegas, Ele posta a foto.

Coitada Dela. Quando volta ao trabalho se sente humilhada e com medo da reação do marido. Ela decide se vingar e ameaça o amante com uma foto dele levando uma dedada, mas não posta.

Essa poderia ser a história de uma as 224 mulheres brasileiras que registraram o vazamento de suas fotos íntimas em 2014, mas foi o episódio da vida de uma personagem da série do Multishow “Odeio segundas”. Roteirizada por Fernanda Young, a série reproduz o machismo da vida cotidiana e banalizou a pornografia de vingança (conhecida como revenge porn).

Isso porque as pessoas não olham e repudiam quando conteúdo íntimo é vazado. Elas acusam a vítima de “ter dado mole”, de ter confiado em alguém do seu círculo íntimo, ou ainda de que mulheres corretas nunca tirariam fotos peladas. Essa cena foi um dos poucos momentos em que vi a pornografia de vingança sendo abordado no audiovisual brasileiro e não foi nada positivo. Pelo contrário, o tema é abordado com humor sem graça e machismo.

Além de não falarem que isso é crime, o criminoso é tratado de maneira neutra, as reações ao acontecido foram todas direcionadas à mulher. A cereja do bolo é o plano de vingança da vítima: postar online uma foto do amante levando uma dedada. Parece que a única maneira de um homem ser atingido por um revenge porn é assim, entrando no lugar do passivo, colocando em dúvida a sua “macheza” e virilidade. Porém, o plano não é concretizado. O episódio termina numa confusão cômica: no fim, Ele fica impune, Ela o perdoa.

De uma maneira mais clara: enquanto você é um homem heteronormativo, ter seu pênis exposto não é um problema. Até o momento que você é colocado numa posição supostamente vergonhosa, de passividade. Passividade essa que é uma construção completamente equivocada do papel de cada um no sexo.

A pornografia de vingança não é piada, mulheres tendo sua intimidade vazada não podem ser culpabilizadas. Nem num programa de TV nem na vida real. Uma sociedade que discrimina uma menina como Julia Rebecca, de 17 anos, que se matou depois de ter suas fotos vazadas, é doente. Deveríamos receber de todos os lados estímulos para esclarecer a todos que vazar nudes não é motivo de piada e sim de debate e revolta. Não é modinha, é crime.

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Para tentar combater esse mal, a ONG SaferNet disponibiliza um canal que recebe denúncias de crimes na web. Em 8 anos, eles receberam 3.606.419 denúncias anônimas envolvendo páginas de quase 100 países. Se você foi vítima de revenge porn, eles também tem um canal para te ajudar. Lembre-se: você não está sozinha.

3 comments

  1. Samara says:

    Bateu orgulho agora desse texto, orgulho de fazer parte dessa geração de meninas não acomodadas e que lutam pra desafazer amarras tão profundas… Amarras essas que muitas vezes passam despercebidas, mas que sim precisam ser enxergadas.
    Faço hoje, Sabrina, de suas palavras tão bem empregadas as minhas próprias.

    Arrasou, viada!

  2. Adilson Antonio says:

    Caraca!!!! Um texto que esfrega na cara do machismo exacerbado o lado real da covardia. Parabéns a autora pelo discernimento do tema e pela ousadia. A partir da leitura passo a ser mais um hétero desconstruído a lutar pelas causas que antes via como coisinhas de mulher. Mais um na luta.

  3. Maria Rosa says:

    Espero que essas meninas mais corajosas que as da minha geração consigam mudar o pensamento dos machistas. As mulheres e os homens têm os mesmos direitos e ponto final.

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