que nem mocinha - natural cycles
Corpo

Natural Cycles: Perigo em forma de aplicativo

Oi, mocinhas! Tudo bom? Há um tempinho atrás, o aplicativo Natural Cycles (NC) bombou nas redes sociais e nos sites notícias. Os desenvolvedores garantiam 99% de eficácia e o app chegou a ser aprovado pelo Ministério da Saúde da Alemanha como método anticoncepcional. Ele ganhou destaque também no Que Nem Mocinha, junto com outros apps que monitoram nossos ciclos.

Porém, as autoridades da Suécia divulgaram que investigariam o aplicativo depois que 37 usuárias ficaram grávidas enquanto o utilizavam. E tem mais! Um hospital de Estocolmo (capital sueca) reportou que, entre setembro e dezembro de 2017, 37 das 668 mulheres que buscaram orientação médica para aborto na instituição declararam usar o Natural Cycles para prevenir a gravidez. Lembrando que, há mais de 40 anos, o aborto é descriminalizado no país.

Bizarro, né? E aí surge a pergunta: por que isso aconteceu? Como o Natural Cycles passou de “queridinho” para “odiado”? As mocinhas Gabriela Marques e Camila Beroldi podem ter a resposta. Em um grupo fechado de contracepção não-hormonal, elas fizeram um post mega detalhado sobre os riscos do aplicativo. Tudo com referências e embasamento teórico. Fui autorizada a replicar o texto aqui, que passou por algumas modificações para melhor compreensão.

O ciclo feminino: O muco, a temperatura basal e as regras de contracepção

Para falarmos das falhas, precisamos antes estabelecer algumas questões sobre a fertilidade feminina. Nós, mulheres, temos ciclos, não somos férteis todos os dias desses ciclos. Na verdade, liberamos geralmente apenas um óvulo por ciclo, que vive menos de 24 horas. No caso da liberação de outro, a diferença varia de 24 a 48 horas. Mas, para que o espermatozoide consiga se encontrar com o óvulo mais facilmente, nosso corpo produz o muco cervical. Nele, o espermatozoide consegue sobreviver entre três e cinco dias, mas há registros na literatura que falam em até sete dias.

Por conta disso, a mulher tem que se considerar fértil a partir do surgimento de qualquer muco cervical, não só o “clara de ovo”. Isso indica que já começou a produção de estrogênio, hormônio que auxilia o óvulo a aumentar e ser liberado! A temperatura basal, aquela que se mede logo após acordar, é alterada pelo hormônio progesterona. Este causa o aumento da temperatura em alguns graus, variando de mulher para mulher. Quando ovulamos e a progesterona aumenta, a produção de muco também muda. Ele fica mais seco e, enfim, some; a mudança é bem abrupta. Assim, conseguimos saber que o período fértil já passou, e que a mulher está infértil.

Como o Natural Cycles funciona?

A usuária registra, todos os dias, suas temperaturas e o algoritmo do aplicativo faz a análise para descobrir quando ocorreu a ovulação. Ele também classifica os dias em verdes (“inférteis”) e vermelhos (“férteis”). Para evitar a gravidez, a mulher deve usar outro método contraceptivo ou não ter relações sexuais com penetração nos dias “vermelhos”.

que nem mocinha - natural cycles - 1

Segundo a própria empresa: “Cada ciclo é diferente, mas a questão é que só pode engravidar durante até seis dias de um ciclo. Para encontrar esses dias, é preciso medir a temperatura assim que acordar e inseri-la no aplicativo. Ele vai dizer se o dia é vermelho ou verde”. Aqui, já começa um erro: não são só seis dias. A ovulação pode ocorrer em qualquer momento do ciclo. Enquanto a mulher tem muco fértil e não verificou que a ovulação já ocorreu, ela pode engravidar. Não tem dia, não tem hora, não tem clima.

“Em um dia verde, não pode engravidar […], mesmo ao natural não fértil. Por trás da Natural Cycles está um algoritmo exclusivo que leva em conta a sua temperatura e muitos outros fatores, como a sobrevivência do esperma, as flutuações de temperatura e as irregularidades do seu ciclo. Ele não só detecta a ovulação e as diferentes fases do seu ciclo, como também faz previsões precisas para os próximos ciclos” (tirado do site deles). PREVISÕES? Um aplicativo que faz previsões? Já ouvi essa história em outro lugar, vocês não?

Mas, liberando dias verdes… Antes da temperatura subir?

Como vimos anteriormente, ele libera a mulher para ter relações sexuais sem preservativo nos dias verdes (“inférteis”) antes que se confirme a ovulação pela temperatura. Ora, se a mulher nem sabe se ovulou ainda, nem quando vai ovular – já que, só sabemos que ovulamos depois que a temperatura sobe – como ele pode classificar “dias verdes” antes que a temperatura se eleve e seja confirmada a ovulação? Como o aplicativo pode ter certeza de que você está infértil, sendo que o sinal confiável para determinar isso é o muco cervical e o Natural Cycles não leva o muco em consideração?

Não há comprovação de que a temperatura basal se modifique antes da ovulação ocorrer. Assim, entendemos que o Natural Cycles classifica os dias com base nos ciclos passados. E é aí que mora o principal problema: isso é previsão de ovulação. Isso te lembra algo? Sim, a famigerada tabelinha, um método muito falho. Afinal, acontecimentos do ciclo passado não necessariamente se repetirão no futuro. Nossos corpos não são robôzinhos que agem sempre da mesma forma.

Nós já estamos cansadas de saber que nosso corpo não é um relógio. Nós não ovulamos no 14º dia todo mês; algumas mulheres ovulam nos dias 10, 20 ou 594. E no dia 10, no dia 20 e no dia 594 do ciclo. Estresse, alimentação, medicamentos, tudo isso influencia na ovulação e em todo o ciclo.

Vamos dar um exemplo aqui pra ficar mais claro

Maria tem 20 anos, faz uso do app há 10 ciclos. Geralmente, sua ovulação acontece no dia 18. O aplicativo, notando isso, “libera” dias verdes até o dia 12. Mas Maria já está com a produção do muco desde o dia 10, e, mesmo assim, por confiar no aplicativo, continua transando sem camisinha com seu namorado João e ele continua ejaculando dentro. Porém, por algum motivo, Maria ovula no CD (“dia do ciclo”, em inglês) 15 nesse ciclo e teve relações no CD 12, quando já estava com muco fértil abundante; mas, por não saber que o muco marca o início da janela fértil, não o considerou. Maria corre riscos muito sérios de ter uma gravidez não planejada.

E aí, o aplicativo indica isso? Ele grita: “MARIA, TOME UMA PÍLULA DO DIA SEGUINTE, POIS NÓS ERRAMOS E SUA OVULAÇÃO CHEGOU ANTES DO PREVISTO!”? Não.
Além disso, nós temos, no grupo de percepção de fertilidade, pelo menos 2 gráficos onde o aplicativo mudou os dias verdes e a data de ovulação, levando a crer que a mulher transou sem outro contraceptivo porque quis.

que nem mocinha - natural cycle - gif 1

Ou seja, nesse ciclo, o aplicativo identifica uma falsa ovulação e depois muda de ideia e remarca os dias verdes e vermelhos, “recalculando” seu período fértil depois que ele aconteceu. A mulher, por sua vez, fica confusa com seus dados. Se você não tirou um print screen da sua tela e dos seus gráficos antes da mudança, não pode nem provar que seus dados foram alterados. Antiético, não? Além disso, o suporte técnico sempre tenta jogar a culpa nas mulheres… Assim, o aplicativo que se vende com uma taxa de falha semelhante ao DIU, por exemplo, na verdade, se aproxima mais da tabelinha: cerca de 30% de falha.

“Mas o app pede teste de LH (hormônio que é um dos protagonistas no ciclo fértil da mulher) e LH confirma ovulação”. Ops… Não. No caso do teste de ovulação, a substância testada é o hormônio luteinizante (LH), que aumenta drasticamente antes da ovulação. Esse aumento serve como um estímulo para a ovulação finalmente acontecer e o teste é feito pra detectar esse aumento. Portanto, quando um teste de ovulação dá positivo, não significa que a ovulação está confirmada.

É possível confiar nas pesquisas que embasam o aplicativo?

Para começar, todas as pesquisas foram desenvolvidas pelo próprio NC e não foram reavaliadas por um órgão independente, para não haver conflitos de interesse. A Camila Beroldi traduziu uma pesquisa feita por cientistas alemães que criaram uma das linhas mais seguras do sintotermal (método que ajuda a identificar os sinais do corpo que demonstram fertilidade), o Sensiplan. Neste artigo, os pesquisadores apontam diversos erros nas pesquisas que os donos do Natural Cycles apresentam para embasar a taxa de falha. É tudo muito técnico, mas é importante falarmos sobre alguns pontos:

1 – O aplicativo exigia que a mulher tivesse acesso ao app hà 3 meses ao menos. Portanto, se a mulher engravidasse neste período, não seria contabilizada na taxa de falha do app. Entretanto, para a usuária comum, isso não é exigido. Ou seja, milhares de mulheres podem ter engravidado no período de aprendizagem, mas na pesquisa elas não são inseridas;

2 – O aplicativo não deixa claro como contabilizou as mulheres que engravidaram usando o aplicativo, se foi por testes de gravidez ou pela duração da fase lútea (uma fase lútea com mais de 18 dias é um indício forte de que a mulher pode estar grávida). Além disso, não citaram dados sobre as gravidezes de 66 mulheres incluídas na amostra da pesquisa;

3 – “As taxas de gravidez em uso perfeito são calculadas a partir de ciclos em que o método foi utilizado perfeitamente. Para o NC, “uso perfeito” significa medir a temperatura diariamente e evitar sexo desprotegido em “dias vermelhos” (não está claro se coito interrompido seria considerado uso perfeito). Entretanto, informações sobre sexo protegido, desprotegido ou nenhum, estavam disponíveis em apenas 8% dos dias da amostra. Isso significa que não existe nem um numerador (gravidezes) nem um denominador (ciclos) disponível para identificar as chances de gravidez em uso perfeito do método.

Apesar disso, eles estimam uma chance de gravidez em uso perfeito do método utilizando dados em que “um dia verde foi dado dentro da janela fértil”, determinando o atual período fértil retrospectivamente, tendo por base o aumento de temperatura daquele ciclo. Fazendo essa estimativa, eles deveriam identificar ciclos de uso perfeito do método como denominador, ao invés disso, eles incluem todos os ciclos. Isso leva a uma taxa de uso perfeito enganosa. É inapropriado e muito enganoso utilizar esse cálculo como um indicativo de “uso perfeito” com índice Pearl, que determina a eficácia contraceptiva dos métodos. O mais adequado teria sido, apesar dos poucos ciclos em que dados sobre relações sexuais foram fornecidas, indicar todos os ciclos em que houve relação desprotegida em “dias verdes” (dias inférteis) como denominador, e, como numerador todas as gravidezes resultantes destes ciclos;

4 – “Todos os ciclos observados foram incluídos como denominador da taxa de gravidez de uso típico, incluindo ciclos em que não houve relações sexuais. Para que não se subestime as taxas de gravidez, apenas ciclos em que houve relações sexuais devem ser inclusos na análise.”

5 – “Poucos dos estudos de FABM (Métodos de Percepção da Fertilidade) citados são propriamente comparáreis ao NC. A maioria deles são de populações e métodos inteiramente diferentes. A menor taxa de gravidez em uso típico para FABM são pelo estudo alemão do método sintotermal Sensiplan. Ao estimar a proporção de ‘dias verdes’, os autores tem como referência uma janela fértil de 6 dias, definidas pelo dia da ovulação e por testes de urina que determinam taxas de progesterona e estradiol. Esse estudo de seis dias vem de uma pesquisa que não foi desenvolvida para explorar os limites da janela fértil e que não pode ser utilizada para excluir a possibilidade de gravidez fora período”.

6 – Os autores declaram: “Foi demonstrado em um estudo anterior que o Natural Cycles possui um algorítimo que determina o dia da ovulação com alta precisão”. Essa declaração é baseada em dados publicados anteriormente pelos próprios autores e donos do app, quando foram analisados 161 ciclos cuja elevação da temperatura foi registrada logo após um teste de LH positivo. Este teste de LH foi o “padrão-ouro” para determinar a data de ovulação. Entretanto, os níveis de LH na urina variam muito de acordo com a data da ovulação. Logo, dados atuais são insuficientes para demonstrar a precisão e acurácia do algoritmo do NC.

Ou seja, as pesquisas do aplicativo são porcas, malfeitas e tendenciosas em vários aspectos diferentes. Elas incluem dados na amostra de eficácia de mulheres que eram abstinentes no ciclo. Se elas nem transaram, como poderia ter chance de gravidez? É muita desonestidade. O aplicativo não tem a taxa de falha que promete e segue culpando as mulheres em vez do algoritmo.

Mas o Natural Cycles foi considerado um contraceptivo confiável…

Outro ponto importante é sobre o tão falado “certificado como contraceptivo” em toda Europa. Novamente, é tudo muito bonito na teoria, mas na prátia a história é outra. Mas então por que o app recebeu esse certificado? A resposta é simples, segundo Thomas Oberst do Tüv Süd (órgão regulador). Ele foi aprovado simplesmente por “atender requerimentos legais”, acrescentando que a certificação “não inclui nenhuma comparação com outros métodos contraceptivos”. Para receber este “selo”, um órgão autorizado da União Europeia deve checar a qualidade de gerenciamento, documentação técnica, requerimentos legais e avaliações clínicas do produtor. “Computadores de ciclo ou calculadores de ciclo funcionam com a mesma base e estão no mercado desde os anos 80”, explica Thomas, que concluiu dizendo que o certificado “não diz nada sobre a confiança e segurança de um método contraceptivo”. Ou seja, esse tal certificado nada mais é do que uma balela publicitária.

Fizemos esse post pra gerar discussão sobre o aplicativo. Sabemos que nenhum método contraceptivo possui eficácia de 100%, mas essa não é a questão a ser discutida. Queremos levantar a bola das incoerências e falhas de um método que atesta erroneamente ter 99% de eficácia. Agora, eles deram para trás e colocaram a eficácia de 93%.

O Natural Cycles não é um aplicativo seguro e não deve ser utilizado por mulheres que desejam seriamente evitar uma gravidez. Especialmente, entre as usuárias brasileiras, que não podem interromper uma gravidez não planejada sem correr risco de morte ou prisão.

Thayanne Porto

Jornalista de coração, alma e diploma, encontrou nas palavras o melhor modo de se expressar. Feminista em eterna construção. Apaixonada por livros, séries, drag queens e sua gata Julietta. Acredita que a revolução pode (e deve!) acontecer de dentro para fora - e por que não dentro de quatro paredes? Quer mandar um e-mail? Escreva para thayanne@quenemmocinha.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *