Pelo meu direito de não ser mãe

Aqui no blog nós falamos sobre várias coisas, e a maioria tem o seguinte denominador comum: o direito de sermos e fazermos o que nós queremos. E isso envolve não querer várias coisas, inclusive ser mãe. A nossa sociedade tem uma dificuldade muito grande de aceitar que algumas mulheres simplesmente não querem ser mães. Não tem nada de errado com elas,é só uma decisão que cabe a elas, e somente a elas. Bem, isso na teoria – na prática, o simples processo de laqueadura não é nem um pouco simples. Para ter esse direito, a mulher tem que ter mais de 25 anos e/ou dois ou mais filhos vivos. E mesmo quando se encaixa nesses quesitos, a burocracia é maior que qualquer coisa. Para falar mais sobre esse assunto, convidei a Renata. O texto a seguir foi escrito por ela, a partir da sua própria experiência:

Mal tenho lembrança de um dia ter sonhado em ser mãe. Talvez naquela antiga brincadeira de criança de responder o caderno das amigas. Depois de um tempo, a ideia morreu e até pensei na possibilidade de ser mãe por meio de adoção – o que também não durou muito, apesar de eu achar a decisão de uma lindeza sem fim!

A questão, para mim, é ter alguém totalmente dependente de mim por minha livre escolha. Alguém ou alguma coisa, seja uma planta, um bicho de estimação ou filhos.

A laqueadura parecia ser a solução dos meus problemas. Infelizmente, convencer um médico a te submeter ao procedimento quando você está na casa dos 20 é perto do impossível, ainda mais sem filhos. Era uma batalha que eu não podia travar naquela época. Sendo assim, como muitas mocinhas, optei pelo anticoncepcional oral. Usei-o por muitos, muitos anos. Sempre soube dos efeitos colaterais, do quanto os hormônios fazem mal, dos riscos, de tudo. Nada disso me desestimulava tanto quanto o rigor ao horário.

Perdi a conta de quantas vezes esqueci de tomá-lo. Por conta disso, eu colocava alarme no celular para não esquecer. Mesmo assim, a tática não era 100% eficaz, considerando trocas de bolsa, o fato de eu não estar com a cartela comigo, etc. Há uma tolerância de algumas horas após o esquecimento sem redução de eficácia do medicamento, mas sempre fui muito neurótica quanto a isso – ainda sou! – e já ficava desesperada. Aí, conheci a pílula do dia seguinte. Eu a usei algumas vezes, confesso, mas é sabido que não devemos fazer dela um método contraceptivo regular. E eu não pretendia mesmo!

que nem mocinha - laqueadura

Já havia passado do tempo de eu procurar algo que se adequasse a mim. Achei: o DIU. Depois de algumas consultas, exames e muita pesquisa, optei pelo DIU hormonal. No dia 16 de maio deste ano, estava eu na clínica para a colocação do dito cujo. Senti cólica apenas em dois dias, minha recuperação foi ótima e não tenho do que reclamar! Está tudo certo – e eu ainda uso preservativo pelos motivos que todas estamos carecas de saber.

O DIU seria pra mim um intermediário entre o anticoncepcional e a laqueadura. Mas três motivos me fizeram mudar de ideia:

1- O índice de eficácia da laqueadura é quase o mesmo do DIU hormonal. A laqueadura tem 99,95% de eficácia, enquanto o DIU hormonal tem 99,8% (o de cobre tem 99,2%)

2- A burocracia é de matar! Como muitos médicos ainda não respeitam a lei, eu precisaria entrar com ações jurídicas. E, neurótica como sou, ficaria me perguntando: será que esse profissional vai fazer tudo direitinho? Se o método já não é 100% eficaz e se algo der errado, como eu provaria se foi por erro médico, má vontade ou coisa parecida? Sei que isso se aplica ao DIU, mas aí eu chego ao item 3;

3- Não sei se vale o esforço para um procedimento tão invasivo. Anestesia, pós-operatório complicadíssimo, necessidade de repouso, dores, etc. É muita coisa e eu não sei se, na balança, compensaria.

Hoje é essa a situação. Estou quase chegando aos 40 anos, não sou laqueada, tenho DIU hormonal e continuo fazendo valer o meu direito de não ser mãe. É uma luta, mas ser mocinha é!

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