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Corpo

Educação sexual não é ensinar crianças a fazer sexo

Toda eleição eu prometo para mim mesma que vai ser diferente, que eu não vou me estressar. Consegui com (mais ou menos) sucesso em 2016, mas a corrida presidenciável de2018 mal começou e eu não sei se vou aguentar até o fim. Pelo menos não sóbria. O Voldemort dessa eleição (ou Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Mencionado para não dar Ibope), em entrevista ao Jornal Nacional na última semana, falou sobre o livro Aparelho Sexual & Cia, que seria distribuído em escolas públicas. E foi além: afirmou que a educação sexual servia para ensinar crianças a fazerem sexo.

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Beyoncé, dai-me forças para sobreviver até o fim dessa eleição

Pois bem, mocinhas. Aqui no blog nós já falamos sobre esse assunto, porém com outra abordagem. Nossa queridíssima psicóloga Erika Oliveira explicou, de maneira bem didática, como falar sobre educação sexual com crianças. Só que agora o tema é outra. Nós vamos falar sobre a importância desse tema dentro das escolas e até mesmo dentro de casa, que é o pesadelo de muitos pais. Vem com a gente que vai ser lindo! 

Desmentindo Voldemort

Antes é preciso entender o que foi dito por Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Mencionado e porque estava tudo errado. Quando questionado pela jornalista Renata Vasconcellos sobre suas (muitas) manifestações homofóbicas, o candidato do PSL mostrou, por poucos segundos, a capa do livro Aparelho Sexual & Cia.

 

“Tomei conhecimento [em 2010] do que estava acontecendo lá [num corredor da Câmara dos Deputados]. Eles tinham acabado o nono Seminário LGBT Infantil.  Estavam discutindo ali, comemorando o lançamento de um material para combater a homofobia, que passou a ser conhecido como kit gay. Entre esse material estava esse livro lá. Então, o pai que tenha filho na sala agora, retira o filho da sala, para ele não ver isso aqui. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem”.

Durante a entrevista, o serumaninho deu a entender que o livro faria parte do projeto Escola Sem Homofobia, que ganhou o apelido de kit gay por parte da bancada conservadora. Resumidamente, era um material de apoio para a formação de professores em temas relacionados aos direitos LGBT, como o combate à violência e ao preconceito no ambiente escolar. Por conta da forte pressão contra, a proposta foi vetada e as peças nunca viram a luz do dia.

Só que o livro Aparelho Sexual & Cia nunca fez parte do projeto Escola sem Homofobia nem de qualquer projeto do Ministério da Educação. A informação foi dada em nota pela Companhia das Lestras, editora que lançou o livro em 2007, e confirmada pelo próprio MEC. O que de fato aconteceu foi uma compra, por parte do Ministério da Cultura, de 28 exemplares da publicação em 2011. Os volumes faziam parte do programa Livro Aberto e foram entregues para diferentes bibliotecas públicas do país. De acordo com o órgão, nenhum deles foi para escolas.

Porque e como levar a educação sexual para as escolas

O projeto de lei Escola Sem Partido propõe uma série de restrições à educação sexual nas escolas e defende que esse tipo de conversa deve acontecer dentro de casa, seguindo os interesses da família. Para essa galera, levar esse tema para dentro da sala de aula dignifica ensinar crianças a fazer sexo, pregar a ~ideologia de gênero~ e fazer todo mundo virar gay ou lésbica.

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Pois é.

Só que nós vivemos em uma sociedade extremamente conversadora, sem abertura para falar sobre sexo dentro de casa. Isso gera diversas consequências. Estamos falando de gravidez precoce, desconhecimento de contraceptivos e crianças que não sabem identificar sinais de abuso. Ao mesmo tempo, nós precisamos entender a falta da educação sexual como um perigo extremo para os mais vulneráveis. É preciso levar em conta que a violência sexual contra crianças e adolescentes cresceu 83% entre 2011 e 2017 no Brasil.

E aí, o que fazer?

Omitir informações importantes sobre corpo, sexualidade e saúde sexual é muito perigoso, sobretudo para crianças e adolescentes. Nessas faixas etárias, nós estamos desenvolvimento nossos pensamentos, a forma como lidamos com outras pessoas e entendemos melhor quem somos. Quando os responsáveis acreditam que é “bobeira” falar sobre isso, sabe onde o jovem vai procurar? Na internet, na conversa com os amigos. E todo mundo sabe que o que tem de besteira sendo propagada por aí…

É neste contexto que defendemos com unhas e dentes a educação sexual dentro das escolas. Ela ajuda a orientar as crianças e os adolescentes de maneira adequada. Isso afasta os riscos de uma educação sexual tardia, como a transmissão de  infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez precoce e comportamentos abusivos. Então, quando conversamos com os jovens sobre sexo de uma maneira limpa, sem tabus ou vergonha, sabem as consequências? Eles encaram o ato sexual com mais tranquilidade e, pasmem!, iniciam sua vida sexual mais tarde. Isso porque a educação sexual contribui para que eles tenham as informações necessárias para tomar decisões com mais responsabilidade. E não é só a gente quem está dizendo isso – as orientações são também da Associação Americana de Psicologia.

Educação sexual salva vidas – literalmente

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Fonte: G1

Vamos conversar sobre essa manchete, publicada em maio desse ano pelo G1? Duas meninas, de 10 anos, assistiram a uma palestra sobre o mês de enfrentamento à violência sexual contra criança. Elas reconheceram alguns dos indicadores e perceberam que elas mesmas estavam sendo abusadas. Quando a palestra acabou, elas procuraram a professora e relataram terem sido vítimas dos atos narrados na palestra. As meninas tiveram acompanhamento psicológico e esperamos que tenham todo o apoio possível e necessário.

O caso foi notificado à Polícia Civil e o suspeito, de 33 anos, foi preso. Ele era próximo das famílias das vítimas e usava a confiança para cometer os crimes. Isso, mocinhas, é o modo mais frequente de abuso de menores. Estima-se que entre 70% e o 85% destes crimes são feitos por um parente ou de alguém próximo ao núcleo familiar. As crianças sentem medo, culpa e vergonha, por isso a maioria das agressões não são denunciadas. Ou, quando são, apenas na idade adulta.

É muito perigoso ter crianças sem referências, informações e opiniões sobre sexualidade. Elas devem saber sobre limites e sobre o seu próprio corpo! Afinal, como podemos esperar que uma criança reconheça um ato de violência sexual antes que ela seja ensinada sobre o que é este tipo de violência?

E como eu posso falar sobre educação sexual com meus filhos/irmãos/etc?

Excelente pergunta, mocinha! Vocês conhecem o livro Pipo e Fifi? Ele ensina, de forma simples e descomplica, conceitos básicos sobre o corpo, sentimentos e trocas afetivas para crianças a partir de 3 anos. No exemplar, o pequeno aprende a diferenciar toques de amor de toques abusivos e erotizados, e sabe também como falar com responsáveis de confiança sobre possíveis abusos. Olhem só esse vídeo para saberem mais:

Se quiserem ter um gostinho de como é a linguagem, podem conferir as publicações gratuitas disponibilizadas no site. Querem mais dicas? O Buzzfeed fez uma lista com sete livros para explicar sexualidade para criançasVale a pena ler e compartilhar com pessoas que tem crianças em casa. Quando somamos forças e deixamos os preconceitos de lado, podemos diminuir os casos de abuso.

Thayanne Porto

Jornalista de coração, alma e diploma, encontrou nas palavras o melhor modo de se expressar. Feminista em eterna construção. Apaixonada por livros, séries, drag queens e sua gata Julietta. Acredita que a revolução pode (e deve!) acontecer de dentro para fora - e por que não dentro de quatro paredes? Quer mandar um e-mail? Escreva para thayanne@quenemmocinha.com

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