Somos mulheres e somos machistas!

O assunto de hoje é polêmico. Sim, o título é esse mesmo. E se você já começou a se defender, enumerar os momentos em que defende as mulheres e pensar que você não é machista, sim, você é. Senta aqui e vamos ter uma conversa séria. Mesmo que você defenda as diversas bandeiras do feminismo – da igualdade entre homens e mulheres – e de todas as lutas das mulheres por condições honestas e justas no mercado profissional e na vida pessoal, mesmo assim, você é machista. Pode ser pequeno, quase imperceptível, miúdo e inofensivo, mas ele está ai, impregnando seu olhar, suas explicações e sua fala.

Que atire a primeira pedra quem nunca olhou para a saia “muito curta” da mulher que estava ali do lado na fila da boate. Ou quem nunca chamou uma mulher de “dada” só porque ela saia com vários caras ao mesmo tempo. Tem também os típicos apelidos machistas para as mulheres que não são nossas amigas: a “puta” da ex do seu atual, aquela “piranha” que dá em cima do seu marido ou “aquela lá” que está no bar bebendo muito e falando alto chamando atenção.

que nem mocinha - mulheres e o machismo

E vou além; o machismo está presente em situações tão corriqueiras que não sentimos ele. Sabe aquela reunião quando todos os presidentes de empresa são homens; quando amigos machistas fala de mulheres solteiras como se fossem prostitutas por gostarem de sexo; quando uma amiga ou amigo fala de alguém que nem conhecemos com vários nomes pejorativos e não tentamos entender o porquê de tudo aquilo? Pois é. O machismo vive ai dentro de você, como um bichinho passeando pelas suas ideias e correndo nas suas veias.

Não se sinta culpada, mocinha. O machismo está impregnado na sociedade e mesmo com pais desconstruídos e modernos, ainda crescemos em uma geração que acha engraçadinho os meninos terem namoradinhas com 6, 7 anos e as meninas devem brincar de boneca. Uma sociedade que diz para você sentar direito, beber pouco e aprender as funções domésticas para casar. Uma sociedade que cria mulheres fortes, mas que tem medo de deixar as filhas viajarem sozinha, ou saírem a noite desacompanhadas.

Eu sei que, como eu, você tenta, dia após dia, melhorar esse discurso, ter coragem para brigar com aquele amigo machista que acha legal ter vídeo e foto de mulher pelada no grupo do Whatsapp, se posicionar perante aquele tio que acha que mulher fala muito palavrão e que não pode falar sobre “certos” assuntos. E é difícil, né? Por isso, eu vim aqui te tranquilizar e te falar que não vai acontecer de um dia pro outro. A sororidade não vai nascer em você e o machismo desaparecer. Não sejamos ingênuas! Depois de anos de criação machista, temos que nos permitir entender essa desconstrução.  Dia após dia. Pensou algo nada a ver, repense ali mesmo. Falou algo que pode ter insultado uma mulher, peça desculpas. Julgou alguém, respira e tenta de novo.

Nós falamos. E eu digo isso porque eu falo. Levanto a bandeira feminista a todo instante, mas já olhei torto para as “mulheres vulgares” só porque o decote era grande ou a saia curta. E esse final de semana, pensando sobre escrever esse texto – dica de um leitor – vivi uma situação que deixou as claras tudo isso.

Tenho uma amiga de uma amiga, daquelas que você gosta muito, mas não é mega próxima. Ela mora fora do Rio e resolveu passar o final de semana aqui na cidade e saímos durante todo o final de semana. Tudo normal, um grupo de amigas solteiras, saindo a noite e se divertindo.  Até que me peguei “explicando” e “defendendo” ela antes mesmo de apresenta-la as minhas amigas cariocas. O porquê? Ela é magra, bonita, cabelo longo e liso, silicone e usa roupas decotadas. Sabe aquela mulher gata que chama atenção, é modelo e tudo mais?

Então ali mesmo, em meio a mil explicações de “ela é muito legal”; “quando você conhece vê que ela é uma fofa, um amor de pessoa”… Eu vi que o meu machismo ainda está aqui. Quando a conheci, pensei torto. Até que ela, com três frases me quebrou em mil pedaços. Ela é engenheira, bonita, da aula para pagar as próprias contas e é independente, sai com quem quer e quando quer. Tudo que nós feministas e mulheres buscamos; liberdade, independência e sororidade. E eu querendo explicar ela pros outros? Eu que deveria me explicar. #shameonme

Não sei se algum dia eu contei isso a ela, ou pedi desculpas pessoalmente. Mas se não, aqui fica o me pedido. A todas as mulheres que ganharam apelidos ruins, olhares tortos ou julgamentos, minhas sinceras desculpas. Nós somos fodas, cada um de um jeito, e não vamos deixar o bicho do machismo nos morder ainda mais! 😉

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