Meu namorado tem HIV, e agora?

Estima-se que existem mais de 35 milhões de pessoas vivendo com o HIV hoje, sendo que 19 milhões não sabem que contraíram o vírus. Com esses números assustadores, não deve ser fácil descobrir que o seu parceiro ou parceira faz parte dessa estatística assustadora. Essa é a situação de uma das nossas leitoras, que nos escreveu pedindo ajuda de como agir. Até agora, ela não foi diagnosticada como portadora do vírus e já pensou em terminar com o namorado diversas vezes, mas o ama demais para isso. Nesse post, vamos tratar desse tema delicado, e tentar ajudá-la com dicas de como viver uma vida sexual plena se relacionando com alguém que tem o vírus.

Um pouco sobre o HIV

HIV é um vírus que se espalha através de fluidos corporais e afeta células específicas do sistema imunológico, conhecidas como células CD4. Sem o tratamento antirretroviral (tente falar isso quatro vezes rápido), o HIV destrói células específicas do sistema imunológico e torna o organismo incapaz de lutar contra infecções e doenças. Quando isso acontece, a infecção por HIV leva à AIDS.  Ou seja, ser portador do HIV é diferente de ter AIDS. A AIDS é como se fosse a consequência do HIV, mas ela não acontece com todos os portadores. Por isso o tratamento é tão importante. O “coquetel de remédios”, como nós conhecemos, prolonga e dá mais qualidade de vida para quem vive com a doença.

No ano passado, foram mais de 40 mil contaminações do vírus e, apesar de tudo, temos boas notícias. Em 2015, o Brasil bateu recorde de pessoas em tratamento contra AIDS e HIV: foram 81 mil brasileiros que começaram a se tratar, um aumento de 13% em relação ao ano anterior. Além disso, em apenas seis anos, aumentou 97% o número de pessoas em tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS), passando de 231 mil para 455 mil pessoas.

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Fonte: Livraria Florence

Estamos progredindo bem nesse setor e as pessoas estão cada vez levando mais a sério esse assunto; em 2014, líderes mundiais assumiram o compromisso de acabar com a AIDS até 2030. E nós podemos ajudar nisso, evitando a contaminação do vírus. Para saber mais sobre o modo de transmissão e sintomas, clique aqui para ler o nosso post.

Cuidando de você

De acordo com a nossa leitora, ela não foi diagnosticada com o vírus – e estamos na torcida para que esse resultado continue negativo. Um pequeno parênteses para quem não sabe como o exame funciona: quem transa sem camisinha ou passa por alguma situação de risco (contato com agulhas contaminadas, por exemplo) tem que aguardar 30 dias antes de fazer o teste. Esse período é chamado de “janela imunológica”, e é o intervalo de tempo entre a infecção e a produção de anticorpos anti-HIV no sangue. Na maioria dos casos, a sorologia positiva (quando a pessoa está com o vírus)  é constatada de 30 a 60 dias após a exposição ao HIV. Porém, existem casos em que esse tempo é maior, daí o teste é realizado 120 dias após a relação de risco, para detectar os casos raros de soroconversão (quando há mudança no resultado). Os exames estão disponíveis de forma gratuita e anônima no SUS, nas unidades da rede pública e nos Centros de Testagem e Aconselhamento.

Agora que esse momento do teste já passou, nossa leitora encara um dilema: terminar ou não? Se o seu namorado contraiu o vírus durante uma pulada de cerca, a história muda de cenário, porque perdoar traição é algo que varia de pessoa para pessoa – eu, particularmente, não sei se perdoaria. Agora, se ele se tornou portador em uma relação anterior e só descobriu agora, não acredito que isso seja motivo para vocês terminarem. Não vou mentir: não existe uma forma 100% segura de você viver plenamente essa relação sem se contaminar, mas, seguindo as orientações certinhas, as chances de você ser contaminada caem para quase zero. Vai caber a você decidir se vale a pena ou não. Namorar um portador do vírus é como namorar qualquer pessoa: vocês vão se sair juntos, passear, beijar na boca e transar – e sim, o sexo pode ser incrível. O vírus não mata o amor nem o desejo. Vocês só vão precisar ter cuidado e bom senso. E esse é o assunto do nosso próximo tópico.

Como se prevenir

Uma palavra para vocês: camisinha. É o único contraceptivo que previne as DSTs, como bem já falamos aqui. Ela é fundamental, não tem nem conversa. Vocês têm que usá-las em todas as relações sexuais, incluindo sexo oral. Sobre esse assunto, vale uma ressalva: alguns médicos defendem que não há risco em fazer sexo oral em um portador do vírus sem preservativos, enquanto outros dizem que sim. Então, por vias da dúvidas, melhor não arriscar, certo? O mercado de produtos eróticos e sensuais é enorme, e já inventaram camisinhas para línguas. Se joga nisso, sem aquele papinho de “ninguém chupa bala com papel”. É a sua saúde que está em jogo – e isso vale para todo mundo, com HIV ou não. Você pode pegar várias DSTs pelo sexo oral, como sífilis, clamídia, herpes e por aí vai.

As feridas na boca ou genitália do seu parceiro ou as inflamações são ricas em células linfocitárias, que são aquelas que contém o vírus. É preciso ficar bem atenta, principalmente em caso de feridas com sangue: nesse caso, o contágio pode acontecer com qualquer passagem de sangue para você, até pelo beijo na boca, que normalmente não transmite a doença. Feridas na sua boca podem servir de porta de entrada para o vírus, e você deve evitar o contato com os fluidos corporais do parceiro.

O lado bom é que ele está super liberado para fazer sexo oral em você, não tem risco algum.

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Outra coisa que vocês devem ter cuidado é na hora do sexo anal. De acordo com um estudo publicado em 2010, o risco de transmissão do HIV durante esse tipo de relação pode ser até 18 vezes maior do que numa relação sexual vaginal. Esse número assustador é justificado pela falta de uso de camisinha, então, mais uma vez vou reforçar a mensagem: o preservativo deve ser usado em todas as relações sexuais. E, por favor!, atenção redobrada ao lubrificante. Diferente da vagina, essa região não possui lubrificação natural e o atrito pode fazer com que a camisinha rasgue. Na hora de escolher o lubrificante, escolha aqueles à base de água e fuja do óleo de coco, que ganha cada vez mais popularidade; ele reage com o látex, podendo rasgar o material.

Na hora de pesquisar sobre esse assunto, você pode ler que relatos de portadores do vírus que passaram a transar sem proteção quando a carga viral se tornou indetectável. NEM PENSE NISSO! É verdade que, quando a pessoa toma antirretrovirais por algum tempo, a quantidade de cópias do vírus HIV no sangue fica muito baixa, a ponto de não ser mais detectada em exames – e que, enquanto essa situação se mantiver, o paciente não pode transmitir o vírus para outras pessoas. Mas, pelo amor de Beyoncé, isso não significa que o paciente esteja curado ou que vocês possam parar de usar preservativos. Vocês precisam ficar atentos aos outros tipos de HIV, além de outras DSTs, como vamos falar mais para frente.

PrEP e Pep

Poucas pessoas sabem o que significa essas siglas. Vamos lá:

• A PrEP é uma sigla que vem do inglês, que significa Profilaxia Pré-Exposição. É a utilização de um medicamento para evitar que uma pessoa que não tem o HIV adquira a infecção quando se expõe ao vírus. Ou seja, você toma durante antes de entrar em contato com o vírus. Até agora, o medicamento que se mostrou mais eficaz na prevenção é o que combina dois antirretrovirais (tenofovir e emtricitabina) em um único comprimido, o Truvada. Estudos comprovam que, se a pessoa tomar o Truvada todos os dias, a proteção contra o HIV chega próximo de 100%. Infelizmente, esse remédio ainda não existe no Brasil. A equipe do laboratório LapClin Aids da Fiocruz faz um super trabalho explicando mais sobre a PrEP e vocês podem tirar suas dúvidas no site deles.

• A Pep (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV) é um tratamento com terapia antirretroviral por 28 dias para evitar a sobrevivência e a multiplicação do vírus HIV no organismo de uma pessoa. Para garantir sua eficácia, a PEP deve ser iniciada logo após a exposição de risco, em até 72h. Se você se expôs ao vírus, deve procurar imediatamente um serviço de saúde que realize atendimento de PEP (confira a lista dos lugares aqui). É importante observar que a PEP não serve como substituta à camisinha.

Outras DSTs

Repita comigo: o portador do HIV pode ter todas as outras DSTs possíveis e imagináveis, incluindo outros tipos do vírus. Estranho? Eu te explico melhor: existem vários tipos de HIV no mundo, e eles possuem diferentes perfis de sensibilidade e resistência aos antirretrovirais disponíveis. Ou seja, tem pessoas com mais “facilidade”, pois seu vírus é mais fácil de ser controlado, enquanto outras sofrem mais, porque seu vírus é mais resistente a algumas drogas, sendo portanto mais difícil de ser controlado. Uma pessoa que tem o vírus mais “de boas” pode complicar o próprio tratamento e saúde se ela se infectar com um vírus resistente, pois vai ter que trocar o esquema antirretroviral que usa. Assim, um portador de HIV tem que continuar atento às medidas de prevenção tanto de outras DSTs quando de outros tipos de HIVs. Isso faz cair por terra outro mito bastante comum, que pode-se deixar de lado a camisinha se os dois foram soropositivos.

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Pensando fora da caixinha

Por estarmos em uma sociedade patriarcal e falocêntrica, quando falamos de relações sexuais, costumamos já pensar em penetração (pênis + vagina), mas será de fato que nossa sexualidade se restringe apenas aos órgãos genitais?

Nosso corpo é composto por uma série de terminações nervosas, as famosas zonas erógenas, que são que determinados pontos ou trechos sensíveis da pele que, ao toque, desencadeiam uma reação de excitação. A presença destas zonas (ou a intensidade da sensação causada) varia de indivíduo para indivíduo, e de situação para situação, embora alguns lugares sejam apontados pela maioria das pessoas, como pescoço, nuca, lóbulo da orelha, lábios e língua, mamilos, nádegas, coxas e dedos.

Além de retomar o cuidado para a pratica sexual (como uso de preservativos sempre!), é importante explorar novas possibilidades, encontrar novas formas para praticas sexuais, incluindo masturbação (com luvas) e até mesmo uso de brinquedos sexuais, que também pedem o uso de camisinha.

Eita! Virou textão, mas super necessário. Mocinha, força para você! Espero que, com essas informações, você consiga se decidir. No fim, a decisão é realmente sua. Esperamos que tudo dê certo, que vocês dois fiquem bem e muita saúde para o seu namorado. Se precisar da gente, estaremos aqui. 

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