Masturbar-se é preciso

Adoramos quando vocês nos enviam textos! Esse foi escrito pela Madame Lúbrica, que vai dar as caras aqui no blog mais vezes. Ela falou sobre algo que muitas vezes ignoramos, mas que é normal: a autodescoberta do corpo e os prazeres que vem junto – de forma inocente, sem maldade.   Esperamos que vocês gostem 🙂 

Com nove anos, eu me apaixonei por uma escova de cabelos rosa. Gosto de falar do nosso caso.
Ela tinha as cerdas brancas e duras. O cabo não era lá muito longo. À primeira vista, era uma escova como outra qualquer.

Um dia, deitada sozinha na minha cama, esfreguei meio por acaso a escova no meu clitóris. Pouco tempo antes, perguntei aos meus pais como se faziam os bebês. Ganhei um livro, bonitinho e ilustrado. Mas nele não havia qualquer menção à palavra orgasmo (esse desconhecido, para tantas), muito menos ao prazer da mulher. Nenhuma linha sobre o clitóris – mas se até bem pouco tempo atrás, nem os mais respeitados livros de anatomia falavam nesse assunto…

 Pois bem. Eu não sabia que existia um clitóris. Não sabia para que ele servia. Eu não sabia o que era gozar. Nem mesmo se existia e o que queria dizer a palavra masturbação. Ainda assim, ao esfregar a escova, tive meu primeiro orgasmo, da maneira mais inesperada e gostosa possível. Foi um susto, uma imensa surpresa, uma delícia.

Era bom de sentir. Éramos só eu e a escova, em nosso relacionamento muito clandestino! Ainda brincava de bonecas. Agora, tinha a escovinha e o clitóris (e a gente nem tinha sido formalmente apresentado!).

Era assim secreto o nosso romance, porque com uns três, quatro anos, corri para contar pra minha mãe que era gostoso brincar com o chuveirinho do banheiro. Eu lembro da cena, rs até hoje. Resultado? O pobre do chuveirinho foi arrancado prematuramente da parede da residência. Só retornou uns dez anos depois. Eu demorava naquele banho, hein? Assim é que a gente vai se “tornando mulher”. Nas castrações da vida. E assim a gente entende por que a informação de que boa parte das mulheres nunca chega lá…

Não, não… A escova rosa era minha, só minha. Mas demorou para ligar lé com cré. Relacionar o que eu sentia a um nome. Não tinha com quem falar. O medo de apanhar, e depois a vergonha, eram os impeditivos.

Fiquei muito chocada quando descobri que existia isso de penetração e de polêmia sobre orgasmo clitoriano e vaginal. Pra quê? Eu hein!

Mas o choque maior mesmo veio quando soube que boa parte das mulheres nunca, jamais, em tempo algum, conseguia ter um orgasmo.

A essa força misteriosa que me salvou, apesar de toda repressão e ignorância, meu muito obrigada ❤️

Mulheres, eu vos digo: descubram-se. Conversem com suas amigas. Procurem no Google, encontre você também sua escovinha!

One comment

  1. Mari says:

    Ahahahah justo! Lembrei de mim com a sua história do chuveirinho, a minha foi a boneca da Ariel que vinha com a cauda de sereia. Foi eu comentar com a minha mãe que nunca mais vi minha boneca. É triste saber que boa parte das mulheres ainda não se descobriu, que não sabe suas preferências e que o orgasmo se encontra lá longe. 🙁 Por um mundo com mais escovinhas!

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