Manifesto das cachorras livres e felizes!

Achei que ia ser mais um dia normal de trabalho, terça-feira com clima meio nublado que dá vontade de voltar para o fim de semana. Mas chego no escritório e me deparo com uma matéria sobre o tal curso de como “Deixar de ser Cachorra”, da filha mais velha de Baby do Brasil, a missionária Sarah Sheeva, de 43 anos. O curso é “para mulheres que querem deixar de ser cachorra e se tornar princesa”. Mas o que é ser cachorra? O que é ser princesa? Mas o mais importante: qual o grande problema de ser cachorra e porque a necessidade de ser princesa? Seguimos rotulando as mulheres, dizendo o que elas podem ou não fazer e o que é certo para uma mulher “direita” e o que é errado e não deve ser feito.

E achei o tema muito pertinente para começarmos esse relacionamento. Afinal, escrever é criar uma ponte com quem lê e, fique feliz!, esse é único relacionamento que busco no momento. Não sei direito com que frequência iremos nos encontrar por aqui, ainda não decidi se esse nosso encontro será semanal ou apenas uma versão própria do “oi sumido”; “chope literário”, sabe, aquele momento para relaxar e colocar pra fora nossos anseios, rir das situações embaraçosas e cômicas dessa vida de solteira.

Prazer, Bianca Silveira! Carioca, 24 anos e solteira. Namorei muito tempo, 6 anos, e antes mais uns 2 anos com o ex-ex. Fui eu quem escrevi o texto sobre como voltar para a vida de solteira depois de muito tempo em um relacionamento, lembram? Desde os meus 15 anos, as pessoas me veem namorando e me achavam “fofa e certinha”. Minha vida teve apenas um ano de solteirice aos 17 anos, e voltei para essa fase agora. E vou te falar, em alguns meses minha vida mudou da água pro vinho ou pra vodka com redbull, ou skolbeats, o que der vontade, hahaahha.

Não me acho a guru dos relacionamentos (ou da solteirice!), e acho que aí está a graça da vida, que todos devemos olhar com bons olhos: aprender com a vida e quebrando a cara, acertando e errando. (Até porque a vida de solteira tem umas desvantagens enormes que conto depois; nem tudo é um selfie linda na night bebendo champanhe.)

De acordo com Sheeva, as casadas e compromissadas não precisam ir ao curso, afinal já vivem o conto de fadas. Bom, eu namorei e nunca fui princesa. Fiel, romântica e companheira, isso sim, a base de um relacionamento. Mas comportada, quieta, de saia rodada e falando baixo, tipo princesa da Disney. Isso nunca! E falo com orgulho. Não fui, não sou e nem serei.

que nem mocinha - manifesto das cachorras felizes

Falava de sexo na mesa do bar com os amigos e, depois de algumas cervejas, me contavam intimidades que nem o ex-boy sabia. E eu respondia, falava o que achava legal e o que não era tão interessante assim. Agora você tá pensando… Cachorra!

Minhas amigas solteiras hoje me pedem dicas, dizem que eu “to soltinha” e querem companhia para comprar produtos eróticos na sex shop. Amigos me mandam mensagem sexta à noite perguntando qual a boa do final de semana porque eu sei das boas. Agora você tá pensando… Cchorra!

Já escutei frases como “me perdi na lista de contatinhos”; “Não era Felipe*? Como mudou pro Mateus* e eu não sei?”; “Não vai abandonar a gente pra sair com ‘homi’ não, a nossa night é mais importante!”; “Bianca, você tá demais, cara, é serio que você mandou oi pra ele no tinder?”; “Mas ai você vai dividir a conta do restaurante e do motel?” e algumas coisas mais. Agora você tá pensando… Cachorra!

Então vamos ao paragrafo chave/resumo desse manifesto. Se ser cachorra é ser solteira, espontânea, falar o que pensa, beijar na boca e transar com caras também solteiros quando e onde quiser… Se ser solteira é usar a tal “roupa curta” e “beber muito para uma menina” e sair todo final de semana com suas amigas e se divertir… Se ser cachorra é retribuir o olhar do cara no bar, trocar telefone e ter um sexo casual sem mimimi e joguinhos… Se isso é ser cachorra, Sarah, vou te falar que é melhor mudar o nome desse curso. Porque ser cachorra é muito bom!

E não vamos chamar religião nem Deus para essa conversa. Acho que se você não cobiça o homem ou a mulher do próximo e tem respeito pelas suas crenças e opiniões, junte-se a nós, cachorras desse mundão do século XXI. Sim, é bom ser cachorra! E se você acha que não, e te incomoda ser tachada de cachorra por conhecidos ou desconhecidos, é porque ainda não entendeu o conceito e está apegada a conceitos machistas. Sai dessa, menina! Nós somos julgadas o tempo todo, recebemos olhares e nomes, então que nós possamos pelo menos nos divertir.

O mais louco de tudo é que ainda vemos mulheres que acreditam nisso e que podem achar normal esse curso. Já ouvi de uma amiga, em um tom de brincadeira, na mesa de um bar, que a minha música era “Todo Dia”, da Pablo Vittar. Vamos ao refrão “ Eu não espero o carnaval chegar pra ser vadia, sou todo dia, sou todo dia!”. E eu respondi com um sonoro: Obrigada! O que para ela era loucura, para a minha vida atual faz todo sentido.  Pra que tantos rótulos com coisas naturais da vida? Se você namora e é fiel, você não é chamada de carola e frígida, então por que quando você está solteira e sai com homens diferentes você é cachorra ou vadia? Amores, vamos reformular esse dicionário ai?

Falar do meu date com o João* do final de semana, se o sexo com o Marcos* foi bom e que o Pedro* segue querendo marcar uma saída… Sim, faz parte! Sair com dois caras no final de semana, ou beijar um na night e outro no almoço do dia seguinte: faz parte! Usar uma saia curta ou um decote para a night, ou ir de calça jeans se você quiser… Advinha? Faz parte! Sair para beber e ter amigos homens que falam de sexo e te perguntam sobre orgasmos femininos. Sim, faz parte! Falar de prazer, orgasmos, gozo, fantasias, desejos e vontades e tudo que faz parte desse universo tabu com suas melhores amigas, sem mimimi. Sim, faz parte! Faz parte da vida! Seja ela a que você escolher. Porque o que os outros rotulam como cachorra, vadia, princesa, careta, puta, dada…  Eu rotulo como liberdade. E você também deveria! Liberdade de ser quem você quer sem, ser ensinada por uma pessoa qualquer, que acha que rótulos e tabus  importam.

Então mocinhas, parafraseando uma música imortal: “Abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa. E leve com você, seu sonho mais louco, eu quero ver seu corpo, lindo, leve e solto!”. Vamos ser mais cachorras se isso significar se permitir sem pré-conceitos machistas e regras impostas pela sociedade. E na boa, se você quer ser princesa, está liberado também! O que não vale é achar que o seu estilo de viver é o único certo e tem que ser vivido por todas, ok?

 

* Os nomes desse texto foram modificados para não expor os contatinhos/esquemas da vida… Vai que dá ruim e eu fico encalhada, né amores?

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