Luciana Walther: Sobre sex shops e outros tabus

Desde a época da faculdade, sempre gostei de ler estudos sobre a sexualidade feminina. Não é a toa que o tema do meu TCC foi pornografia feminista – e foi assim que surgiu a ideia para escrever o Que Nem Mocinha, com um empurrãozão da minha querida orientadora, Cristiane Costa. Gosto sempre de me atualizar no mundo acadêmico, da onde vira e mexe sai algo interessante. O meu último “achado” foi o livro “Mulheres que não ficam sem pilha”, da Luciana Walther. O livro relata os achados científicos da tese de doutorado de Luciana, defendida no Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela questiona os tabus e preconceitos associados ao comportamento sexual das mulheres brasileiras e quer difundir a ideia que o exercício da sexualidade feminina, com ou sem brinquedinhos eróticos, não deve ser motivo de vergonha, sofrimento ou culpa. Como não amar? Entrei em contato com a assessoria da Luciana e nós batemos um papo super bacana sobre sex shops e tabus. Vem conferir!

Não é de hoje que Luciana Walther estuda o consumo erótico feminino. Ela começou em 2007 e já apresentou os resultados de seus estudos em congressos nacionais e internacionais — super chique. Para saber mais sobre o trabalho dela e ler os artigos que ela publicou mundo a fora, é só clicar aqui.  No primeiro semestre do seu curso, teve uma aula com a professora de Antropologia Mirian Goldenberg que tratava de corpo, gênero e sexualidade na cultura brasileira. Na mesma época, Luciana havia descoberto a existências das boutiques eróticas femininas, lojas que são totalmente planejadas para as mulheres, desde o mix de produtos até a música ambiente. A pesquisadora também havia encontrado um dado que a surpreendeu: 70% da clientela dos sex shops no Brasil são mulheres. Ela decidiu usar o que aprendeu na aula da Mirian, que veio a se tornar sua orientadora na tese, para analisar aquela nova consumidora que a boutique erótica feminina pretendia atender. “Quem era ela? Como ela surgiu em nossa sociedade ainda marcada pelo patriarcalismo? Quais mudanças ela provoca na indústria erótica e na sociedade? Essas foram algumas das perguntas que minha tese de doutorado buscou responder”, diz.

que nem mocinha - luciana walther, sex shops e outros tabus

Fonte: Yahoo! Notícias

Para escrever sua tese, Luciana recolheu o depoimento de 35 mulheres em boutiques eróticas femininas, sex shops e feiras de negócios no Rio, São Paulo e Minas Gerais. Sobre o “fator vergonha”, foram vários os motivos dados pelas entrevistadas: o medo de desconhecido, o medo de encontrar com alguém conhecido na porta da loja ou dentro dela. Algumas também relataram a vergonha de fazer compras na frente de homens e uma mulher de 59 anos confessou ter vergonha de fazer compras na presença de mulheres mais jovens. Em relação ao uso dos produtos, medos como a reprovação do parceiro e o medo do vício foram citados. Porém, a pesquisa de Luciana derrubou o mito que a consumidora poderia ficar viciada em um vibrador e substituir o parceiro: “Nenhuma consumidora disse ser viciada no uso individual dos vibradores e prescindir da presença do outro nas relações sexuais. Ao contrário, todas enfatizaram os benefícios do uso conjugal dos produtos eróticos e fizeram questão de dizer que não abrem mão dos relacionamentos. Portanto, elas temem o vício no uso individual de vibradores e suas consequências, mas esse temor não se concretiza na prática”.

Interessante, não? E tem mais! De acordo com Luciana, ainda há uma falsa percepção que os produtos eróticos são para mulheres solitárias – e nós sabemos que isso está longe de ser verdade. A mulher vai ao sex shop procurar produtos para intensificar o próprio prazer, e tem outra enorme parcela que procura itens para dar uma apimentada na relação. Tanto que os produtos mais vendidos nas sex shops brasileiras são os cosméticos eróticos, como os géis, que são destinados ao uso a dois.

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Essa fofa aí é a Luciana Walther // Crédito da foto: Helena Leão

Com todas essas ferramentas online que nós já conhecemos e amamos, fica difícil pensar que as lojas físicas vão sobreviver por muito tempo. Mas a pesquisadora garante que não é bem por aí. Claro que as lojas virtuais têm suas vantagens, como total privacidade, a consumidora não precisa enfrentar a vergonha de ir ao estabelecimento físico e as embalagens de remessa costumam ser discretas sem menção a sex shop. Até no cartão de crédito a compra aparece de forma que não compromete a consumidora.Porém, a desvantagem da compra online é a impossibilidade de ver e experimentar o produto, seja ele um cosmético, cuja textura e perfume são importantes, seja uma lingerie, que precisa ser vestida, seja um vibrador, cujo tamanho, vibração e toque determinam a escolha. Por isso, os estabelecimentos físicos fazem questão de tirar os produtos da embalagem e demonstrá-los na loja. As consumidoras, muitas vezes, entram nas lojas online para pesquisar modelos e preços, e depois vão à loja física ou procuram uma consultora para ver o produto pessoalmente e, quem sabe, efetuar a compra.

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Incrível essa pesquisa, não é? Para saber mais, só lendo mesmo. O livro está disponível nas principais livrarias do país, nas lojas físicas e online. Quem ler, não se esquece de contar para a gente o que achou!

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