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Julianna Costa: O erótico além do clichê

Depois de 50 Tons de Cinza, os livros eróticos ganharam um espaço inacreditável dentro das editoras e nas prateleiras das livrarias. Porém, a maioria peca em retratar as mocinhas sempre como seres frágeis, que precisam de um herói para salvá-las das suas vidinhas pacatas. Somos sempre incompletas, sem personalidade, esperando um homem dar sentido às nossas vidas. E isso enche o saco. Mas, calma!, nem tudo está perdido. São nomes como Julianna Costa que, no cenário nacional, escrevem protagonistas femininas fortes, que têm parceiros porque querem, não porque precisam. E hoje vocês vão conferir a entrevista que eu fiz com ela sobre o universo dos livros eróticos, esse estereótipo da mocinha e como é escrever histórias que mexem com o imaginário (e corpo) das pessoas.

Julianna Costa nasceu em Pernambuco e hoje mora em São Paulo — mas seu coração cigano já a levou para vários lugares. De acordo com o seu diploma, ela é bacharel em Direito, mas não exerce tal função. Em vez disso, ela escreve livros: o primeiro, “Agnus Dei” foi lançado em 2011 e faz parte da série “A Idade do Sangue”. Em 2014, pela editora Universo dos Livros, lançou o romance erótico “23 Noites de Prazer”, que conta a história de Nahia, uma garota tímida que, em um belo dia, conhece o homem dos seus sonhos. Não, ela literalmente conhece o homem dos seus sonhos. Amadeo a visita todas as noites e, assim, liberta seus desejos sexuais mais profundos.

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Digam “olá” para a Julianna!

Confira a entrevista que ela deu para o Que Nem Mocinha e aproveite para conhecer mais sobre seus livros!

  • Como surgiu seu interesse pela literatura erótica?

Pela leitura, com Anaïs Nin. Em algum momento na minha adolescência, eu folheei um pocket book em uma livraria e li o começo de “Lina”. Achei aquilo tão emblemático, com sua análise sobre a hipocrisia da sexualidade, que levei o livro pra casa. Mas, confesso, minha paixão pela autora só veio alguns anos depois quando li Delta de Vênus e seus diários.

Pela escrita, começou de modo experimental. Eu escrevia fantasia urbana e queria incluir algumas cenas eróticas na história, mas nunca gostava do resultado. Então, comecei a escrever alguns contos eróticos para praticar.
  • Como o feminismo entrou na sua vida?

Eu sempre fui feminista, mas, como muitas de nós, levei algum tempo para abraçar a palavra.

Eu já tinha lido Segundo Sexo e mais uma porção de livros teóricos sobre feminismo enquanto manifestação política, mas nunca tinha realmente refletido sobre tudo que significava, e parte de mim sentia que “feminismo” era uma palavra que significava coisas diferentes para diferentes pessoas, então eu preferia não usar rótulos.

Na prática, acho que me descobri feminista – com rótulo e tudo – há uns três ou quatro anos quando comecei a ler A Mulher na Sociedade de Classes, da Heleieth Saffioti. Era um livro do meu pai, uma edição antiquíssima, dessas que as páginas se desfazem na sua mão, acabei não lendo todo. Mas aquilo foi um gatilho, pra mim, me gerou uma curiosidade impossível e eu comecei a ler mais sobre o tema. Tenho uma edição mais recente do livro, hoje em dia hahah consegui terminar minha leitura.
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  • No texto que você publicou no Medium, “As putas da literatura erótica“, você trata justamente de um dos (muitos) estereótipos que as as mulheres recebem: puta. Puta se gosta de ler sobre sexo, puta se gosta de fazer sexo.. E, escrevendo sobre isso, você já deve ter sido chamada disso ou de nomes similares. Como lida com isso?

Acho que dei sorte nessa categoria. As pessoas em minha vida são muito abertas e despidas da maior parte desses preconceitos mais venenosos. Meu pai sempre foi muito tranquilo, não havia assunto em nossa casa que fosse “tabu”. Minha mãe já leu todos os meus livros, minha avó também. Meus amigos sempre me deram muito apoio e meu marido – então namorado – foi um parceiro incrível nesse caminho todo.

Então, o preconceito que sofro é mais indireto e social. É o homem que me adiciona em redes sociais, enviando poemas e imagens não solicitadas porque acha que escrever literatura erótica é consenso implícito, por exemplo…
  • O problema de muitos livros eróticos da atualidade é que eles seguem sempre a mesma premissa. Uma mocinha, sempre tímida e praticamente frígida, se encanta por um homem incrível, supra sumo, que tem a síndrome do pau de ouro. Ou seja, é só ele encostar nela que, boom!, orgasmos múltiplos. Como fugir desse clichê? Como colocar a mulher como protagonista do próprio prazer?

Acho que existe uma diferença entre a mulher como protagonista de um casal e a mulher enquanto protagonista de si mesma.

A mulher desse primeiro tipo é aquela que não existe fora do casal. Uma personagem que tem toda sua jornada desenvolvida por causa das interações com um homem. Veja bem, eu não acho que isso é sempre necessariamente ruim. Em algumas histórias, isso pode ser rico. Mas, de modo geral, eu gosto de retratar mulheres que são protagonistas de si mesmas. Elas são as donas das histórias e os homens – mesmo quando protagonistas – estão ali porque a eles foi permitido entrar.

Dentro do meu trabalho, acho 23 Noites um bom exemplo a citar. Apesar de haver romance, a história não é um romance apenas. Não é a história de uma mulher e um homem, sabe? É a história de uma mulher e suas várias experiências sexuais – com diferentes parceiros – em sua jornada de autodescoberta. Em outros trabalhos, eu gosto de explorar as figuras de personagens secundários e eventos do cotidiano. Elementos que impulsionam a mulher em sua jornada pessoal e que transcendem a figura do homem-parceiro sexual/emocional.

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E isso é uma das coisas que mais me orgulho em meu trabalho. Seja em comentários de postagens online, através de redes sociais, mensagens diretas ou críticas, eu escuto com uma frequência muito maior, as leitoras citarem uma de minhas personagens femininas dizendo “eu queria ser mais como ela”, do que citar um de meus personagens masculinos dizendo “eu queria ter ele”. Isso, pra mim, é importante. Porque sabemos que o público feminino é o dominante nesse gênero, então, fico feliz em saber que crio mulheres que poderiam servir de exemplo, mesmo em histórias com personagens imperfeitos que nem sempre fazem a coisa certa…
Li uma frase há um tempo atrás que dizia algo como “os homens nos livros são muito mais incríveis que os da vida real, e as mulheres da vida real são muito mais incríveis do que as dos livros”. Então acho que é isso: quando eu escrevo, tento fazer minha parte pra equilibrar a balança. Montar mulheres que façam o leitor dizer: “esse cara tem muita sorte de ter essa mulher, porque ela é maravilhosa” assim como o são muitas mulheres da vida real. Não sei se sempre consigo, haha Mas é o que eu tenho em mente quando escrevo.
  • Você está trabalhando em uma nova trilogia, a Negligê, que se passa em uma escola de sexo. Você pode explicar um pouco mais sobre como vai funcionar essa escola?

Não sei se posso dizer muito sem cair em spoilers, hahah Mas a ideia é apresentar uma escola de sexo secreta que existe dentro de uma empresa da indústria pornográfica. No livro, a protagonista descobre essa escola depois que seu pai, o dono da empresa, morre deixando – em um testamento enigmático – toda sua herança para uma pessoa que ninguém parece conhecer. Cada capítulo vai ter um tema erótico a ser apresentado enquanto a protagonista se aprofunda mais nesse mundo, tentando descobrir quem é o herdeiro misterioso, e mais: se seu pai teria sido assassinado e por quem.

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Thayanne Porto

Jornalista de coração, alma e diploma, encontrou nas palavras o melhor modo de se expressar. Feminista em eterna construção. Apaixonada por livros, séries, drag queens e sua gata Julietta. Acredita que a revolução pode (e deve!) acontecer de dentro para fora - e por que não dentro de quatro paredes? Quer mandar um e-mail? Escreva para thayanne@quenemmocinha.com

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