Coaching pode”curar” traumas e disfunções sexuais?

Olá, queridas mocinhas! Hoje, quero falar com vocês sobre a polêmica apresentada na novela “O Outro Lado do Paraíso”. Para quem não acompanha, a personagem Laura (Bella Piero) passa por uma hipnose/coaching para resgatar suas memórias do passado e entender por quê tinha problemas sexuais com o marido. No meio da sessão, Laura lembra que foi abusada pelo padrasto. Isso gerou muuita polêmica e o Conselho Federal de Psicologia chegou a criticar duramente a novela.

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Se vocês não sacaram a polêmica, tudo bem. É confuso mesmo, então vou explicar no post hoje. Essa “propaganda” da técnica de coaching acabou banalizando as disfunções sexuais e o quanto isso impacta a vida das mulheres. Tratar desse assunto tão delicado com tamanho descaso é um desserviço a todas as vítimas de violência. O meu intuito aqui é aproveitar o espaço para tirar dúvidas sobre dor gênito-pélvica (DPG) e principalmente destacar a importância e a eficácia do tratamento multidisciplinar.

O que a personagem Laura apresenta é um caso de vaginismo?

Não podemos responder com certeza. O que deixava transparecer nas cenas era um desconforto da personagem e a impossibilidade da penetração. Isso pode ser causado por ardência (vulvodinia) ou impossibilidade total da penetração (vaginismo), mas era claro que existia um caso crônico de dor gênito-pélvica. Nesse momento, houve falha por parte do enredo da novela em informar e alertar que, muitas vezes, aspectos físicos causam dor no ato sexual, como presença de miomas, endometriose e infecção urinária. A avaliação e a conduta, junto ao ginecologista de confiança, também é importante para a eficácia do tratamento das disfunções sexuais.

Toda mulher abusada sexualmente apresenta esse quadro de dor no ato sexual?

Não podemos generalizar. Algumas mulheres, infelizmente, irão desenvolver quadro igual ou parecido ao da personagem. Porém, existem outras consequências, que podem estar ligadas ou não à área sexual:

  • Desejo sexual hipoativo
  • Anorgasmia
  • Aversão Sexual
  • Compulsão sexual
  • Síndrome do pânico
  • Ansiedade generalizada
  • Depressão
  • Stress pós-traumático, que pode aflorar sintomas de transtorno de personalidade, como Boderline e bipolaridade.

É imprescindível a presença e a participação de profissionais da área da saúde, devidamente veiculados aos seus conselhos regionais, no tratamento. Eles vão trabalhar com pensamentos e emoções conscientes e inconscientes relacionadas ao abuso, às suas consequências e principalmente à maneira como a vítima pode ressignificar todo esse processo doloroso.

Qual sua opinião sobre coaching/técnica de hipnose sobre o tratamento do vaginismo e outras disfunções sexuais?

A hipnose tem eficácia sim para tratamentos das disfunções sexuais e outros traumas emocionais. Porém é necessário que tal conduta seja guiada por um profissional gabaritado para lidar com duas demandas diferentes, mas interligadas: que tipos de conteúdos irão surgir após a técnica e o que será feito com isso. Lembrem-se disso, mocinhas: nosso inconsciente é sábio. Se a nossa memória não consegue acessar determinados acontecimentos das nossas vidas, é porque nossa consciência não dará conta do que está para emergir. Isso é um mecanismo de defesa, que é trabalhado dentro de um processo psicoterapêutico.

Esse talvez tenha sido um dos principais incômodos sofridos por psicólogos e psiquiatras diante do enredo da novela. Descobrir apenas a origem do trauma é algo totalmente raso. Se somente resgatar da memória fosse cura, Freud não teria desenvolvido toda uma técnica psicanalítica. Ele mesmo era usuário da hipnose e passou a observar que o efeito surtido era apenas temporário, para a retirada dos sintomas. Assim, seus pacientes acabavam retornando iguais. Freud então constatou que a hipnose servia apenas para provar que conteúdos podem ser armazenados em um local da mente, o famigerado inconsciente, e que este poderia ser mexido.

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Sem contar que o psicanalista percebeu que nem todos pacientes reagiam a essa técnica. Ele, então, começou a se dedicar a maneiras de tornar acessíveis os conteúdos inconscientes que causavam os sintomas. Foi aí que passou do método catártico para o método da associação livre, abandonando completamente a hipnose. Trocando em miúdos, a hipnose pode ser eficaz se feita com profissional da área da saúde mental que vai trabalhar não apenas a origem do trauma, mas o processo de ressignificar o trauma.

Somente a terapia sexual cura o vaginismo ou outras disfunções?

Nem sempre. Vamos olhar para o sexo como algo que une dois aspectos do ser humano: mente e corpo. Quando o corpo não está em pleno funcionamento, qualquer atividade, inclusive a sexual, será impactada. O mesmo ocorre com a mente: se não estivermos bem emocionalmente, nossa rotina será afetada.

Levando em conta que o sexo é a junção desses dois aspectos, é importante que a parte física seja trabalhada. Nosso corpo deve formar novas memórias e reconstruções em seus grupos musculares, o que é trabalhado com profissionais da fisioterapia pélvica. Eles vão apresentar técnicas para dessensibilizar o assoalho pélvico, que é mais rígido em mulheres vagínicas (aquelas que têm vaginismo).

Dependendo do caso, nós, terapeutas sexuais, temos que direcionar o paciente a outros profissionais para que ele tenha o melhor tratamento possível. O atendimento multidisciplinar é a melhor opção, pois trabalha de forma simultânea os bloqueios físico e psíquico. Isso proporciona bem-estar e cura para as disfunções. Na minha humilde opinião, foi essa a principal falha na trama da novela. Infelizmente, é bem comum apresentar um tema tão complexo como os traumas causado por abuso sexual de forma tão banal. É preciso mostrar que existe sim a possibilidade de cura dessas disfunções, se houver todo um apoio multidisciplinar.

 

Esse texto foi revisado pela mocinha Angélica Fontella <3

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