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#AssédioÉHábitoNoPensi – e em muitos colégios

A gente adora falar de putaria e coisas divertidas, mas tem horas que precisamos sentar e falar sério. Na semana passada, o Twitter foi dominado pela hashtag #AssédioÉHábitoNoPensi. Garotas de diferentes unidades do grupo Pensi (rede de escolas e cursos pré-vestibular) relataram casos de assédio por parte de professores e funcionários. Até o último dia 17, foram contabilizados mais de 45 mil tweets com o tema.

Mas, né, alguém ficou realmente surpresa com os relatos? Não estou falando que eles não são necessários, pelo contrário. Mas surpresa? Não tive. Estudei num colégio que segue a mesma linha do Pensi e o cenário era o mesmo. Isso é um absurdo, mocinhas. Nós expomos nossas meninas, a maioria menor de idade, a homens feitos que usam (e abusam) da sua posição de autoridade. E o pior? A coordenação sabe – não ousem dizer que não sabe. Mas ninguém fala nada porque, né, pra que deixar uma besteirinha atrapalhar? São apenas homens, não conseguem se controlar.

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Essa sou eu escutando uma MERDA dessas

Com a palavra, uma das alunas

Tá, mas como chegamos até aqui? Convidei a Vitória Madeira, aluna do Pensi e leitora do Que Nem Mocinha para explicar a situação. Queria deixar registrado aqui a força que essa nova geração tem e a Victória é um desses exemplos que fazem nossa fé crescer. Sem mais demoras, a sua versão do que está acontecendo:

O Colégio-Curso Pensi está sendo alvo de diversas acusações de assédio. As alunas sofrem diariamente com diversos professores que são extremamente abusivos e aproveitam da sua autoridade para assediá-las. Os casos eram levados à coordenação e direção do colégio, que fazia de tudo para abafar as situações e realocava os professores, que seguiam na rede, porém em outras unidades. As alunas foram então motivadas a fazer algo com que o acontecia.

O estopim foi a demissão de uma professora que auxiliava as alunas com o pretexto de que a Pesquisa de Opinião do Aluno não estava boa. Logo a hashtag #AssédioÉHábitoNoPensi foi criada. Estudantes de todas as unidades denunciaram professores que, por anos, assediavam alunas dentro e fora das aulas. 

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Os abusos são feitos por muitos funcionários da instituição em forma de piadas constrangedoras até ameaças de repetência se as alunas não tivessem relações sexuais com professores. A organização do ato se deu pelo Whatsapp e as alunas não esperavam tanta adesão da comunidade, que apoiou a pauta e ajudou as estudantes. A direção deslegitimou o movimento e fez (e ainda está fazendo) tudo o que pode para que as estudantes não se manifestassem. Na unidade de Madureira, na zona norte do Rio, um policial militar teve que intervir para que as alunas pudessem sair da escola.

Com a visibilidade, outras instituições passaram a integrar o movimento, como a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e a União Nacional dos Estudantes (UNE). Escolas federais e estaduais, dentre outras instituições de ensino privadas, também aderiram ao movimento e colaram cartazes nos colégios, usaram camisetas vermelhas durante a semana e fizeram denúncias administrativas nas respectivas instituições. Os colégios denunciados não tomaram as devidas providências com os professores acusados, e por isso, as alunas secundaristas do estado vão realizar um ato na próxima sexta-feira (24) às 14h na Candelária, centro do Rio. As estudantes pretendem, com o ato, conseguir a demissão dos professores denunciados e uma direção pedagógica que proporcione um ambiente seguro e propício ao estudo, que deveria ser prioridade das instituições de ensino. 

#AssédioÉHábitoNoPensi – e em muitos, muitos outros colégios

É impressão minha ou estamos em 2011, na época que eu estava no Ensino Médio? Foi essa a sensação que eu tive lendo os corajosos relatos das meninas do Pensi e de outros colégios. Sim, porque estudantes de outras instituições criaram suas próprias hashtags para mostrar que o problema não está em apenas um colégio ou curso. É praticamente generalizado nesse ramo e ainda bem que temos uma geração forte de alunas que resolveram dar um basta nisso.

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Porque, caras leitoras e leitores, esse papo não é de hoje. Em 2016 vazou um áudio de um professor assediando uma aluna de 16 anos. Passou pela escola inteira, chegou na coordenação e até em outros colégios. A resposta? A mesma que está acontecendo hoje em dia: os professores acusados estão sendo apenas mudados de unidade, mas continuam dando aula. Ou seja, o famoso passar pano que vemos acontecer todos os dias com homens abusadores. Eles são sempre coitadinhos, né? Já as meninas, aaaah, essas com certeza davam em cima deles! Nós, mulheres, sempre sabemos o que estamos fazendo e os homens são pobres vítimas dos nossos esquemas. 

“Você é muito madura pra sua idade” é o caralho

Ainda sobre minha experiência de Ensino Médio. Tinha um professor que eu era apaixonadíssima, meu sonho de consumo era que ele me notasse e percebesse que sim, eu era muito madura para a minha idade. Que nós pudêssemos conversar de igual para igual, porque eu não era como as outras alunas, imagina. Esse modo de pensar é extremamente tóxico e faz com que mulheres jovens, ou ainda adolescentes, comessem a se relacionar com homens bem mais velhos.

Não estou dizendo que a idade é o problema. Meu namorado é 10 anos mais velho que eu. O problema são as diferentes fases de vida. Hoje, apesar dessa diferença, nós temos uma rotina muito parecida. Trabalhamos, ganhamos nosso próprio dinheiro e cuidamos da nossa casa. Quando levamos essa diferença para o ambiente de sala de aula, tudo muda. Estamos falando de homens feitos, já empregados, dando em cima (ou até mesmo assediando!) meninas de 16 anos. Elas, por sua vez, têm zero independência financeira, suas opiniões ainda estão sendo formadas. E sabe por que eles fazem isso? Porque, nessa fase, nós somos muito fáceis de sermos manipuladas. O QG Feminista escreveu um texto excelente sobre esse assunto lá no Medium, recomendo bastante.

Todo o nosso apoio às alunas do Pensi e de todos os outros cursos

Sério, vocês são fodas. Eu fico muito, muito feliz por ver essa mudança de pensamento. Ainda bem que vocês entendem esse pensamento como tóxico em vez de lisonjeador, como eu e muitas colegas acreditávamos ser. Quando vemos uma movimentação como essa, nossos corações se enchem de esperança.

Juntas, somos mais fortes. Vocês não estão sozinhas. ♥

Thayanne Porto

Jornalista de coração, alma e diploma, encontrou nas palavras o melhor modo de se expressar. Feminista em eterna construção. Apaixonada por livros, séries, drag queens e sua gata Julietta. Acredita que a revolução pode (e deve!) acontecer de dentro para fora - e por que não dentro de quatro paredes? Quer mandar um e-mail? Escreva para thayanne@quenemmocinha.com

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