A eterna busca pelo 1%

Direita, esquerda. Sim ou não. Gostei ou detestei. Like ou passa direto. A vida é feita de escolhas. Pensando bem, deve ter sido muito simples para o criador dos aplicativos de paquera desenvolver uma plataforma seguindo esses padrões. O meio termo não existe mais na nossa sociedade, a dúvida não tem lugar. Somos imediatistas, rápidos, queremos tudo para ontem, pulamos etapas e vamos logo aos “finalmentes”. Se o homem fala algo bobo, ou sem sentido, já queremos bloquear no whats app, excluir e fingir que nunca existiu. Somos – e me incluo nessa- a geração digital, conectados 25 horas por dia, que posta tudo e sabe todos os detalhes sórdidos da vida de todos ao nosso redor. E o digital invadiu nossa casa, trabalho e vida. Somos a geração Tinder, Happen, direct e tudo mais que pode ser usado como plataforma de paquera e dates. E como toda escolha tem suas consequências; podem ser boas, com vários dates e esquemas para o fim de semana, ou podem ser uma lista de desastres e situações que nem sempre são as ideais.

que nem mocinha - pricura tinder

Somos a geração que está sempre olhando pra baixo, para uma tela e para uma notificação na tela do smartphone. Perdemos o olho no olho, o encontro de sorrisos ao atravessar a rua, o papo bobo na fila do restaurante ou o encontro furtivo no bar. Perdemos o interesse no outro, na sua história e nos momentos que podem ser vividos no fim de semana. Já saímos prontos pra fechar negócio (ou com o negócio já fechado), não nos permitimos a inquietude do charme, o nervosismo do encontro e o frio na barriga com os toques rápidos e os beijos roubados entre as frases. E quando o encontro não é bom, a gente da unmatch, bloqueia, deixa de seguir nas redes e segue o baile.

Acho válido o uso de aplicativos para aqueles mais tímidos, com pouco tempo para vida social ou até mesmo para quem não gosta de sair a noite para os locais que rendem paquera, beijos e olhares. Se você não se encaixa nessas categorias, me explique qual a manha dos aplicativos? Me sinto uma velha falando, mas vamos lá. Não me adapto e não sei se conseguirei me adaptar a esse jogo de sim ou não. Xis ou coração verde. Match ou ignorada. E a solteirice já está batendo a minha porta desde dezembro. Ou seja, tá difícil entender a dinâmica desse novo jogo.

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Quando comecei a usar os aplicativos, separava os caras em quatro categorias:

1) Os sem nenhum papo (nenhum mesmo!), que morria no “oi” e às vezes ficava só no match. Aí eu tomava coragem e a conversa simplesmente não fluía.

2) Os tarados de carteirinha, que já começam as conversas com adjetivos tipo “delícia”, “gostosa” e perguntando de nudes. Querido, vamos com calma! Somos bem resolvidas, mas o mínimo de papo tem que rolar né? Afinal de contas, até aquele ficada de uma noite pós night teve um mínimo de papo e química, quem é você que já chega querendo que eu abra a perna?

3) Os que parecem ser interessantes, até a conversa fluir e você ver que ele tá analisando todas as suas fotos e buscando uma modelo pra sair e aí o papo vira nada a ver e cheio de fuga.

4) E aquele 1%, raro, único e praticamente em extinção: os homens legais, que sabem bater papo, que podem render um barzinho, um chope e quem sabe um algo mais se for de vontade dos dois. E pra cada 1 homem do tipo 4, encontro 50 do tipo 3, 98 do tipo 2 e 150 do tipo 1.

(Ah, #ficadica: Pra rir de homem escroto no Tinder, acesse essa página aqui do Facebook)

Onde estão as pessoas interessantes desse mundo? Onde está o 1% que todos buscam? E me pergunto isso, me culpando também. Porque o erro não está no aplicativo e na forma como ele funciona, e sim em nós, usuários; às vezes sem conteúdo, às vezes sem paciência e sem vontade de desenvolver uma conversa. Às vezes com a agenda muito cheia para marcar um barzinho ou esperando demais de um cara que só quer bater papo.

A verdade é: a solteirice do século XXI vem com expectativas altas demais. Alto, bonito, sarado, esportista, nerd, inteligente, loiro, olhos claros, moreno, bronzeado, foto sem camisa, foto cult, anda de skate, surfa…. São tantos pré requisitos, tanta vontade de achar o homem mais maravilhoso do aplicativo que nos perdemos. Já recebi críticas de amigas próximas sobre caras que eu saí. E não, não eram críticas construtivas, eram apenas olhares e comentários porque ele não era sarado, não era alto e maravilhoso. Não, não era. Mas me rendeu diversos sorrisos, risos e boas saídas.

que nem mocinha - cade 1 - tinder

A oferta é tanta que esquecemos os tais “normais” podem render ótimos papos, um beijo encaixado e até uma foda de final de semana. Vivemos reclamando que não tem gente interessante no mundo, mas deixamos os rótulos tomarem conta das nossas ações. Falamos com 10 ao mesmo tempo, em diversas plataformas, porque o fim de semana tem que render. Essa necessidade de ter alguém faz com que a pressa seja a nossa aliada; e como já diziam os mais sábios, a pressa é inimiga da perfeição, que dirá de um date interessante.

Tive alguns casos de sucesso no Tinder, não vou mentir, nem pagar de fodona dos “dates orgânicos”, como disse uma amiga. Sim, sempre tem um amigo de uma amiga, um menino da night, um amigo da época da faculdade que reapareceu, um ex ex ex que rola um flashback… Sempre tem. Mas o Tinder é um ótimo passatempo para os dias chuvosos, pros domingos de tédio e pra quando você está se sentindo meio sem nenhum esquema pro fim de semana.

Mas o Tinder – ou cardápio humano, para os mais íntimos e pensativos – traz consigo a busca pela perfeição. Até onde vamos tentar ser perfeitos para ter o tal like, o coração verde, o match? Até onde vamos procurar o melhor ângulo e a melhor foto ao invés de colocar aquela foto que amamos, que nos sentimos lindas e divertidas? Até quando vamos ter uma chuva de selfies nas redes sociais, retocadas, com filtro, phootoshop, facetune só pra ser mais desejável? Até onde deixamos as neuras da sociedade perfeita acabar com a nossa vibe?

Digo isso por experiencia própria. Essa semana, um papo bacana com um menino do Tinder acabou de forma esdruxula, após enviar o link do meu Facebook.  Talvez porque a foto do meu perfil seja minha na night rindo de orelha a orelha, sem filtro e retoques. Talvez porque os meus posts falam de amor próprio e de coisas bobas da vida. Talvez porque eu não seja a mulher perfeita, gostosa, loira, de olhos claros, magra, com corpo de barbie, sexy e tudo mais que essa pessoa esperava ter com um match.  Estaria mentindo se não falasse que abalou – sempre abala. E o pior, me peguei olhando minhas fotos e analisando se elas estavam boas. Ai abro um parêntesis para a pergunta: Boas pra quem? Para um cara qualquer? Mas a sensação brochante passa, porque somos imediatistas e até mesmo os foras na nossa vida são rápidos. Assim como estamos preparadas para os matchs da vida, os ótimos dates, os esquemas maravilhosos do fim de semana, temos que estar preparadas para essas situações.

Então o que fica depois desse enorme desabafo é: vamos sair mais, olhar mais pro outro e menos pra tela do celular. Vamos nos permitir sermos nós mesmas, com todas as nossas qualidades e defeitos, atitudes e ideias. Vamos postar foto sem facetune, sem 500 filtros e sem essa nóia de achar defeito em tudo. E se você é adepta dos aplicativos e se dá bem com eles, ótimo, continue! Mas procure os caras normais, gente como a gente, com histórias além de uma descrição ridícula de duas linhas. Curta um papo além do “oi, tudo bom? De onde você é e faz o que da vida?”. Não busque um homem ou uma mulher pela perfeição que ela passa nas fotos, mas sim pelo bom humor, pelo papo, pela química dos assuntos. Mesmo com muita gente vazia e superficial no mundo, vamos buscar aquele 1% de gente legal, bacana, com bom papo, bom beijo, que gosta de dividir uma batata frita e um milk shake com você e que talvez renda outras saídas. Porque esse 1% existe! Pode estar escondido e difícil de achar; você pode passar por 99 conversas lixo, muitos foras e muitos unmatchs, mas ele existe. O 1% pode estar sob um sorriso tímido, um gosto musical duvidoso ou um corpo não tão escultural, mas ele tá ai.

Então, falo para vocês, queridas mocinhas, o conselho que dou para mim mesma toda manhã dessa vida de solteira: vamos nos permitir, estar abertas para o novo e felizes com nós mesmos, porque só assim pra aguentar os 99% lixo em busca do 1% que faz a gente sorrir. 😉

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