A enxaqueca e o anticoncepcional

Para quem não acompanha o blog com frequência, eu parei de tomar o anticoncepcional há quase um ano e meio. E não foi um processo fácil: pesquisei bastante, li texos e mais textos. Acabei descobrindo várias coisas, entre elas a relação entre o AC e a enxaqueca. Vocês sabiam que que mulheres que tomam anticoncepcional e sofrem de enxaqueca com aura (vamos falar disto mais tarde) têm 2x mais riscos de AVC e têm piora de seus riscos cardíacos quando comparadas às não usuárias da pílula? Por isso a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou os Critérios Médicos de Elegibilidade para Uso de Métodos Anticoncepcionais, e excluiu as mulheres com enxaqueca do uso de anticoncepcionais. Em resumo, o OMS afirma que mocinhas com enxaqueca não devem utilizar pílula combinada (aquela que contém estrogênio e progesterona). Resolvi reunir algumas informações para, juntas, entendermos os motivos desta recomendação. O que você tem é mesmo enxaqueca? Primeiro vamos falar da enxaqueca, que afeta 11% das mulheres (dados do Estudo Americano de Prevalência e Prevenção das Enxaquecas). Esse distúrbio pode acontecer com aura (quando a pessoa tem sintomas antes da enxaqueca, como ficar com a visão turva) e sem aura. Enxaqueca é uma doença crônica, por isso deve ser acompanhada por um médico. Só um profissional qualificado pode passar os remédios certos para combater esse mal. Temos que ter muito cuidado para não confundir enxaqueca com dor de cabeça normal, chamada de cefaleia tensional (relacionada ao estresse, cansaço), ou dor de cabeça que rola durante a TPM/menstruação. Também leve consideração seu estilo de vida (você fuma? bebe? faz exercícios com frequência?) e outros problemas de saúde. Começando do início: Equilíbrio hormonal Não é a toa que a enxaqueca incide muito mais nas mulheres do que nos homens – a cada homem com esse distúrbio, existem cerca de quatro mulheres sofrendo deste mal. Existe um desequilíbrio hormonal nessa equação: nós, mulheres, possuímos um “equilíbrio dinâmico” entre o estrogênio e a progesterona. O primeiro é estimulante do sistema nervoso central, e quem tem enxaqueca não se dá bem com estimulantes. Isso porque essa doença crônica já compreende um estado de hiperatividade do sistema nervoso central. A conta é bem simples, até mesmo para quem é de humanas, como eu: Estado de hiperatividade + algum tipo de estimulante = Terreno fértil para dor de cabeça. Isso também explica que produtos com alto teor de cafeína devem ser evitados por quem tem enxaqueca. Tá, e o que a pílula tem a ver com isso? Durante o nosso ciclo menstrual, nós ovulamos, certo? Porém, se uma mulher não ovula, ela não produz progesterona. A ausência deste hormônio, que “acalma” o cérebro, faz a balança pesar – lembra que eu falei que o estrogênio possui ação estimulante do cérebro? Então, nessa situação de desequilíbrio, rola um efeito hiper estimulante. Se a enxaqueca por si só já compreende um estado de hiperatividade no cérebro, a presença de hiperestimulação em um cérebro já hiperativo tem tudo para potencializar piorar as dores de cabeça e crises de enxaqueca. Logo, podemos chegar a uma conclusão: não ovular faz mal para o nosso equilíbrio hormonal. E vocês sabem como a pílula age dentro do seu corpo para evitar que você engravide? Ela tem ação anovulatória – ou seja, o anticoncepcional faz com que você não ovule. Para as mocinhas que não entenderam, aqui vai um resumo: 1. Não ovular agrava as crises de enxaqueca. 2. O anticoncepcional tem ação anovulatória; ou seja, quando você toma a pílula, você não ovula. 3. Logo, se você toma AC e já tem enxaquecas, aumentam (e muito!) as chances das suas crises se agravarem. E a pílula só de estrogênio? Algumas mocinhas que sofrem de enxaqueca usam a pílula composta apenas de progesterona como método contraceptivo. Se para você funciona e você não vê problemas, vai fundo. Mas fique atenta: não troque de marca sem conversar com sua médica e expor o que te incomoda. Além disso, se mesmo assim você continuar com dor, pare imediatamente com o AC. Volte ao consultório e discuta outros métodos contraceptivos – eu, por exemplo, estou adorando o DIU de cobre. Mas tomar anticoncepcional melhorou minha enxaqueca! Eu sei, eu sei. Vocês podem falar que tomar anticoncepcional não fez nada disso, pelo contrário: você já não sente tanta dor e, de modo geral, está se sentindo bem. Mas isso não significa que está tudo bem, porque quando o corpo é essa máquina louca que funciona de diferentes formas. De modo geral, quando algo falta, o corpo reage e aumenta a produção daquilo que está faltando. Vou dar um exemplo para vocês entenderem:. Imaginem que a pele de vocês é oleosa (meu caso). Para tentar combater isso e diminuir o número de espinhas, você usa um mega hiper produto, que é tão poderoso que retira até demais o sebo cutâneo, que serve para hidratar e proteger. A pele entende que algo está errado e compensa produzindo mais óleo para evitar o ressecamento e manter a proteção. É basicamente isso o que acontece em relação ao anticoncepcional. Ou seja, a maneira como o seu corpo reage pode provocar sintomas (no caso da pele, uma produção excessiva de óleo). Agora, se você aumentar muito o nível do estrogênio – e tomar  AC faz isso -, o seu sistema pode ficar tão confuso que para de te avisar que algo de errado não está certo. O que acontece é pura e simplesmente uma supressão dos sintomas – mas as coisas ainda estão acontecendo, a causa ainda está ali, você só não está sentindo. E “não sentir” não significa que o problema desapareceu. Difícil, né? Eu sei. Quanto mais você sabe, com mais medo você fica. Então, mocinhas do meu coração, além de procurarem uma ginecologista, eu sugiro que vocês se consultem com uma neurologista para discutirem outros métodos contraceptivos. O problema de “está tudo bem” é quando as coisas deixam de estar bem, e aí as consequências podem ser terríveis. Vamos se cuidar, manas?  Você também pode gostar de…Um mês sem a pílula anticoncepcionalVilão ou mocinho? Fatos sobre o anticoncepcionalSeis meses sem anticoncepcionalPorque eu parei de tomar a pílula Leia também: