A culpa não é sua, mana.

Quando alguém é assaltado, é muito difícil falarem que a culpa é de quem perdeu seus pertences. Quando alguém é atropelado, a culpa raramente cai em cima do pedestre. Porém, de acordo com a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 37% dos entrevistados concordaram com a afirmação “mulher que se dá ao respeito não é estuprada”. Achou ruim? Tem mais: 30% concordaram com a frase “mulher que usa roupa provocativa não pode reclamar se for estuprada”.

Eu só tenho uma coisa pra te falar: mana, a culpa não é sua. 

Os dados são da pesquisa inédita #APolíciaPrecisaFalarSobreEstupro, cujo objetivo era ter uma percepção sobre violência sexual e atendimento a mulheres vítimas nas instituições policias – quem quiser ler o estudo completo, pode clicar aqui. Em um país que registra quase 50 mil casos de estupro por ano, ter um terço da população acreditando que a culpa é da vítima é muito preocupante. Acredito que as pessoas ainda não se deram conta que estupro é crime e deve ser tratado como tal. Não é sobre sexo, é sobre poder e violência. O assunto foi trazido à tona no caso da menor de idade estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro, mas parece que nós não aprendemos sobre isso: não aprendemos sobre consentimento, não aprendemos a dor voz às vítimas e não aprendemos que vivemos em uma cultura do estupro.

E isso é apavorante.

Fonte: Brasil Post

O survey realizado pelo Fórum em parceria com o Datafolha também mostrou que 65% da população tem medo de sofrer violência sexual. O percentual cresce quando desagregamos o dado por sexo, já que 85% das mulheres brasileiras afirmam ter medo, ante 46% dos homens. Muitos homens acham esse medo “injustificado”, mas nós, mulheres, sabemos que não é. Se você acha que eu estou mentindo, é só olhar os dados: Segundo o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 47.646 casos de estupro em todo o país em 2014. Isso significa pelo menos um estupro a cada 11 minutos. “Pelo menos” porque a maioria das mulheres estupradas não reportam o crime.

Em entrevista ao Jornal Metro, a promotora e coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo, Valéria Scarance, o resultado da pesquisa mostrou “uma distorção na noção de respeito”:

Caberia então à mulher se acautelar e se dar ao respeito, não ao homem respeitar. A pessoa passa a merecer respeito por seu comportamento, e não por ser pessoa. – Valéria Scarance.

Nós, enquanto sociedade, vivemos em um sistema que perpetua a violência contra a mulher e culpabiliza as vítimas. O machismo no Brasil se reflete em uma cultura que glorifica os atributos ligados ao universo masculino e perpetua a desigualdade entre os gêneros. O masculino é associado ao poder, à virilidade e à agressividade. Nesse contato, cabe à mulher ficar no seu canto, submissa a vontade do homem e que deve dedicar sua vida à cuidar do seu marido, dos filhos e das questões domésticas. Nunca ela é a protagonista, ela nunca é quem manda – se a mulher se esforça para ter sua voz ouvida, ela é “histérica”, “mandona”.

O que essa pesquisa mostra é que, quando a mulher sai desse papel de “dona de casa perfeita”, a sociedade passa a tolerar a violência. As respostas, coletadas em 217 cidades do país, mostraram que grande parte da população considera as próprias vítimas de agressão sexual como responsáveis por não se comportarem de acordo com uma “mulher respeitável”.

“A perpetuação da ideia de controle do comportamento e do corpo das mulheres faz com que a violência sexual possa ser tolerada” –Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS): Tolerância social à violência contra as mulheres. Brasília: 4 de abril de 2014. 

Essa mentalidade está presente, principalmente, entre os homens. 42% dos entrevistados concordaram com a afirmação que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, enquanto 63% das mulheres discordaram. Ou seja, para quem concorda com a frase, as mulheres são responsáveis pela própria violência sexual, seja pelo seu comportamento ou pelo tipo de roupa que usa. Isso reflete uma mentalidade que acredita que as mulheres provocam esse tipo de situação, ainda mais com a ideia de que os homens não conseguem controlar seus “instintos naturais”.

Sobre a frase “A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”, a porcentagem dos que concordam não varia entre homens e mulheres (30%). Isso significa que, para 1/3 dos brasileiros, a mulher que é agredida sexualmente é, de alguma forma, culpada pela agressão sofrida se opta por usar certas peças de roupa.

Essa é minha reação agora

Outra coisa que a pesquisa apontou é que o porcentual de concordância com as duas frases cai conforme aumenta o nível de instrução: 19% dos pesquisados com nível superior para a primeira frase e 16% para a segunda. Para a promotora, isso mostra a importância da educação para mudar o pensamento. E isso é um fato, tanto que 91% dos entrevistaram disseram que “temos que ensinar os meninos a não estuprar” – o que causa certo conforto nesse meu coraçãozinho e na minha vontade de viver, já tão pisoteados por essa pesquisa. De modo geral, a sociedade percebeu que a educação pode alterar a cultura machista, que perpetua a violência contra a mulher. Pena que nós pensamos no futuro (“a próxima geração resolve”). Até lá, mais e mais garotas irão sofrer com abusos sexuais.

Sei que escrevi textão, mas é necessário. Enquanto vivemos em uma sociedade que culpa a vítima pelo próprio estupro, novos casos irão acontecer. O estupro não tem nada a ver com a roupa que a mulher usa, o horário que ela está na rua e o quanto ela bebeu. Não importa se ela vestia mini saia e top ou se estava coberta dos pés à cabeça. Levando em conta que a maioria dos entrevistados acredita que a lei brasileira protege os estupradores, podemos entender que o problema não é com elas, e sim com um sistema que perpetua a cultura do estupro, tão presente nos pequenos detalhes do dia a dia.

E, mana, a culpa não é sua – nem nunca será. Você pode correr pelada na rua, ninguém tem o direito de te tocar sem a sua permissão. Se você sofreu algum tipo de abuso ou violência sexual, procure ajuda. Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. A denúncia é anônima, gratuita e disponível 24 horas em todo o país. Para proteger e ajudar as mulheres a entenderem quais são seus direitos, em 2014, a Secretaria de Políticas para as Mulheres lançou um aplicativo para celular que traz diversas informações importantes, como os tópicos da Lei Maria da Penha.

Você não está sozinha. Se você acredita que não pode falar com ninguém da sua família ou do seu círculo próximo de amigos, dê uma olhada no Mapa do Acolhimento. O espaço reúne terapeutas que se inscreveram como voluntárias para atenderem mulheres vítimas em várias cidades do Brasil. Além disso, duas mil voluntárias se dispuseram a avaliar serviços públicos de atendimento a vítimas de violência sexual no país.

Fique firme, irmã.

3 comments

  1. Dona Coelha says:

    O assedio sexual ainda é um tema bastante inconveniente aqui no Brasil, embora pelo que tenha no exterior não é tão diferente assim.
    De qualquer forma não podemos tolerar coisas assim, obrigada por compartilhar tantas informações importantes e sua mensagem de carinho para quem já passou por isso.
    Estamos juntas na luta contra a estupro e em apoio das vítimas!

  2. Cassia Moura says:

    acheo muito válido vcs abordarem assuntos sobre violência contra as mulheres.
    Eu tenho 18 anos e sou estagiária em uma empresa há 2 meses fui para o setor de vendas e passei a ser assediada pelo meu atual gestor.
    Ele ja falou varias vezes q meu jeito de menina inocente deixa ele louco.
    Isso me dá tanto nojo, que a repulsa q tinha por homem só aumentou e confesso q minha relação amorosa com meu namorado balançou, não consigo nem deixar ele me tocar….

    preciso de help!!!!

    • Thayanne Porto
      Thayanne Porto says:

      Cassia,

      Você não pode denunciar para o setor de RH? Grava ele falando as coisas. Infelizmente é muito difícil, muitas meninas tem medo de levantar a voz no ambiente de trabalho porque não querem perder o emprego.

      Como eu escrevi ali no texto, você pode fazer a denúncia no 180. A atendente pode te orientar melhor em como agir. Por enquanto, tente ficar o mais longe dele possível. Feche a cara quando ele falar esse tipo de coisa, deixe bem claro que você não está gostando – e que isso é assédio. Você sempre terá nosso espaço para desabafar! <3

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