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Final Feliz Para Quem?

O ano tem, até o momento, 85 dias. Até o dia de hoje, 8 personagens lésbicas foram mortas no horário nobre da televisão norte-americana. De acordo com o estudo mais recente feito pela GLADD (Gay And Lesbian Alliance Against Defamation, uma ONG que defende os direitos LGBT), apenas 4% de 881 personagens regulares da televisão aberta são gays, lésbicas ou bissexuais, um total de 35 personagens. A morte dessas 8 personagens, somente em 2016, representa algo em torno de 15% de todas as mulheres LGBT em seriados de grandes emissoras.

Fanart da artista @MaryneeLahaye
Fanart da artista @MaryneeLahaye

O equivalente seria se 127 personagens heterossexuais tivessem sido mortos, na televisão aberta, durante esse ano. Se essa situação acontecesse, você não ficaria indignado? Desolado? Não é uma questão de escolha do autor para narrativa ou de resolução de conflito entre autores e atores. É a sensação de impotência de milhões de fãs ao assistirem repetitivamente, suas personagens preferidas, suas representações na mídia televisiva, morrerem.

Pensa no impacto da representação midiática. É através da mídia que se fomenta diversas relações sociais, inclusive a aceitação e respeito pelos direitos do outro. É através da televisão que pessoas com mentalidades opostas às expostas no seu programa favorito conseguem enxergar diferenças e se pegar torcendo pelo final feliz de um personagem fora do padrão social homem, branco, heterossexual, cisgênero. As pessoas enxergam o diferente e compreendem que gênero, sexualidade, cor de pele não definem como um personagem (ou uma pessoa) se comporta na vida. Entende-se, então, que elas são mais que os estereótipos retratados e merecem ser vistos (e tratados) com respeito. Afinal, eles são seus familiares, vizinhos, colegas de trabalho, pessoas normais que trabalham, amam, riem, choram. E isso é ótimo!

Contudo, é importante lembrar que a representação televisiva não está apenas para que o outro compreenda como é a vida de alguém. Ela é a forma de se enxergar na mídia. Encontrar em um personagem, se apegar a ele, fazer parte de um grupo. Não se ver na mídia, pode ter um efeito desolador para jovens inseridos na sociedade atual. Imagina que após entender como as diferenças se comportam na sociedade ou se ver representado na televisão, seu personagem LGBT favorito morra. Repete-se a ideia heteronormativa que a felicidade não pertence a quem não se encaixa nas regras sociais impostas.

O problema está exatamente quando os roteiristas não deixam esses personagens sobreviverem e encontrarem um final feliz. Não é obrigatório que os finais sejam sempre felizes, mas ter apenas finais infelizes é complicado para todos. Porém, o desespero encontrou na internet a motivação para mudança. Iniciou-se após a morte da personagem Lexa, de The 100, a campanha LGBT Fans Deserve Better.

Imagem de divulgação da campanha
Imagem de divulgação da campanha

A série, voltada para o público jovem, utilizava as mídias sociais para se comunicar com os telespectadores e promover as histórias, especialmente, as que se tratavam do casal formado por duas mulheres. Após a morte da personagem, fãs passaram a dar unfollow no autor da série no twitter, ele perdeu 15 mil seguidores em 48 horas, e durante o horário de exibição da série colocaram nos assuntos principais do twitter os tópicos “Minorities are not disposable” e “Stop Queerbaiting 2k16”.

Se isso já não fosse o suficiente para incomodar, montaram uma campanha e arrecadaram mais de 70 mil dólares para o Trevor Project – um projeto que intervêm em momentos de crise e auxilia a prevenção de suicídios para jovens da comunidade LGBT –  e, por fim, criaram uma personagem para série Fear The Walking Dead, chamada Elyza Lex, que não existe para além da comunidade de fãs, mas é tratada por estes como se fosse escrita pelos roteiristas, e assim, conseguiu chamar a atenção de grandes veículos de comunicação.

Sim, está difícil ver tantas personagens mulheres e lésbicas morrerem na televisão durante esse ano. Ao mesmo tempo, está sendo maravilhoso poder presenciar o desejo e a força por mudança dos fãs de televisão ao lutarem com as forças que possuem para que parem de ser menosprezados pelos autores de televisão.

Jornalista. Feminista. Sempre na luta por um mundo mais igualitário. Planeja a todo momento sua próxima viagem. Apaixonada por séries, filmes e livros. Acredita que as palavras são capazes de ajudar a criar um mundo melhor.

4 Comentários

  • Zita

    Cheguei aqui e não sabia se devia comentar, até porque o final do ano está próximo (entretanto mais caracteres lésbicos já morreram) e este post já foi há algum tempo. Mas depois de “Não é obrigatório que os finais sejam sempre felizes” tenho a dizer que não, que não é obrigatório que todos os finais sejam sempre felizes. Mas temos de convir, tudo o que seja “lesbianismos” puxa ao drama e a tragédia. Mas não só de agora, não só este ano, não só nestas novas séries. Em filmes desde sempre, 80% dos filmes lésbicos acabam mal… ou morrem de doença, ou se matam, ou matam alguém, ou ficam sozinhas, ou ficam infelizes para o resto da vida. Deixei de ver filmes lésbicos porque inevitavelmente já sabia como iam acabar. Cada vez que aparece um carácter lésbico em alguma serie pergunto-me quanto tempo irá durar sem “virar” hetero ou sem morrer. Sinceramente acho que por as personagens lésbicas terem este padrão constantemente faz com que os autores, escritores, etc (homossexuais ou não), achem que é assim que as lésbicas se identificam e que o que querem é esse drama e tragédia e chorar rios de lágrimas no final.
    Quero dizer com isto que a “culpa” não é só deste ano, é de um estigma que se criou da “raça” lésbica.

    • Carol Caldas

      Oi, Zita! Tudo bem?
      Primeiro, muito obrigada pelo comentário! A sua experiência agrega bastante ao que foi escrito no texto.
      Segundo, quero deixar claro que condeno a presença quase onipresente de finais infelizes para casais lgbt na produção midiática. Um fenômeno não apenas de 2016, mas de muitos anos.
      Só quis dizer que não sou contrária a dramas lgbt, acho que dramas são importantes narrativas. O problema é quando temos apenas dramas e tragédias para contar as histórias de mulheres lésbicas. Enquanto não mudarmo esse cenário, jamais superaremos o preconceito ou estigma social que recaem sobre essa minoria.

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